Quando um paciente epiléptico é considerado curado

Epilepsia tem cura?

A epilepsia é uma doença neurológica crônica caracterizada por crise epilépticas que tendem a se repetir quando as pessoas não são tratadas. A definição clássica requer pelo menos duas crises não provocadas com um intervalo de pelo menos 24 horas entre as crises para se estabelecer o diagnóstico da doença epilepsia. Isso quer dizer que um diabético pode ter uma convulsão por hipoglicemia mas não será epiléptico por isso. É preciso que a pessoa esteja livre de causas externas como drogas, medicamentos, doenças graves, infecções, alterações de eletrólitos para que possamos considerar a crise como um sinal da doença epilepsia. Uma vez feito o diagnóstico, a maior dúvida dos pacientes é por quanto tempo deverão tomar medicação e se algum dia ficarão curados.

O principal objetivo do tratamento é o controle total das crises

O primeiro objetivo do tratamento da epilepsia é deixar a pessoa completamente livre de crises, sejam convulsivas generalizadas ou as focais quase imperceptíveis. Para isso preferimos controlar as crises usando uma medicação apenas, já que a associação de remédios aumenta o risco de efeitos colaterais. Entretanto, se necessário, combinamos medicamentos para um melhor resultado. Sabemos que epilépticos não controlados correm riscos, inclusive o de ter uma parada cardíaca por causa da epilepsia (SUDEP).

Nosso segundo objetivo é que o paciente esteja livre de crises e também livre de efeitos colaterais. Por fim, com as crises controladas e sem efeitos colaterais, a pessoa pode viver sua vida normalmente em todos os aspectos, assim atingimos esse terceiro objetivo do tratamento.

A duração do tratamento para epilepsia

Quando o neurologista consegue obter o controle total das crises e o paciente está bem adaptado com sua medicação, o próximo passo é saber por quanto tempo o tratamento deve ser continuado. Lembremos que a suspensão abrupta dos medicamentos por decisão do paciente é a principal causa de crises epilépticas graves que podem levar a hospitalização e até a lesões permanentes no cérebro. Por isso, a retirada da medicação dever ser feito pelo médico de forma lenta e gradual.

Algumas formas de epilepsia têm mais chance de cura que outras

Existem alguns tipos de epilepsia que acontecem até uma certa idade, quando o paciente atinge essa idade, ele poderá ser considerado curado. Nesse caso, a cura da epilepsia é decorrente do amadurecimento do cérebro que se torna mais estável. A Epilepsia rolândica é um desses tipos de epilepsia que desaparecem entre os 14 e 18 anos.

Também há aqueles que obtêm controle total das crises por tempos prolongados e o médico pode fazer a retirada se o paciente está há mais de 2 a 5 anos sem crises clínicas e não há razões para suspeitar que o mesmo voltará a ter crises com a retirada dos remédios. De acordo com a classificação mais recente da Liga Internacional contra a Epilepsia, um paciente é considerado curado se está há mais de 10 anos sem crises epilépticas e nos últimos 5 anos desse período ficou sem medicamentos para epilepsia.

A epilepsia é considerada curada quando o paciente está há mais de 10 anos sem qualquer tipo de crise epiléptica e está há pelo menos 5 anos sem medicações para epilepsia.

Viver a vida plenamente é o maior benefício do tratamento

É importante saber que não são todos os pacientes que se curam de epilepsia, mas a grande maioria atinge um controle total ou bastante satisfatório das crises e pode viver de maneira produtiva. Com os tratamentos novos em desenvolvimento, a esperança de vida normal vem se tornando concreta para a maioria das pessoas que enfrentam esse problema. Além disso, temos também a possibilidade de cirurgia em casos selecionados.

Se do ponto de vista médico e científico o tratamento da epilepsia tem avançado, na questão social ainda há muito o que melhorar. A doença ainda é cercada de preconceitos, o que pode ser mais limitante que as próprias crises. Devemos trabalhar para a conscientização da população, mostrando que a epilepsia não é contagiosa e não carrega qualquer valor que diminua a pessoa portadora. É importante que familiares, amigos e colegas de trabalho apoiem o paciente e ele se sinta seguro o tempo todo dentro da sua comunidade.

Roger Taussig Soares
Neurologista – São Paulo
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Comentários
    • Olá Sílvio!

      Obrigado pela pergunta.
      Em geral, quando a epilepsia começa na fase adulta a chance de cura é menor.
      Isso porque a epilepsia do adulto costuma ser sintomática. Quer dizer, ela é um sintoma de alguma lesão adquirida no cérebro.
      As causas para lesões cerebrais podem ser: tramatismo craniano, acidente vascular cerebral, cisticercose, tumores e qualquer coisa que cause uma lesão focal.
      É importante fazer o diagnóstico com imagem para afastar doenças que precisam tratamento especial.
      Quanto às crises, felizmente costumam ser de fácil tratamento.

      abs!

  • Olá!

    Eu fui diagnosticada com epilepsia aos 17 anos, hj tenho 29, faço uso de 1 fenobarbital por noite, fico sem crises a anos, da última vez fiquei 3 anos sem crise, quando tive de novo, não cheguei a convulsionar, apenas senti uma ameaça de crise, isso já aconteceu 2x mesmo ano, devo me preocupar? Ou pode ser um sinal de q as crises estão cessando?

    • Olá Flávia,

      Infelizmente devo lhe dizer que “ameaça de crise” é crise mesmo. Acontece que uma crise epiléptica que fica restrita a uma parte do cérebro gera sintomas apenas relacionadas àquela parte.
      Por exemplo, uma crise restrita à região da visão, pode se manifestar com alucinações visuais; uma crise que pegue a região do hipocampo pode gerar sensação de cheiros estranhos; na região da insula pode causar um calafrio na barriga e assim por diante.
      A crise que não pega o cérebro inteiro é chamada de crise focal. As crises focais precisam de tratamento do mesmo modo que as generalizadas.
      Se quiser marcar uma consulta comigo, entre em contato pelo WhatsApp 11-94022-9838.

      🙂
      Roger Soares

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