Nem tudo que parece Alzheimer realmente é

Tão importante quanto fazer o diagnóstico de Alzheimer é duvidar dele. Certamente o Alzheimer é a principal causa de demência degenerativa em idosos e sua frequência é tão alta que pensar em Alzheimer diante de um declínio cognitivo progressivo é acertar na maior parte das vezes. Todavia, existem outras doenças que podem se apresentar com sintomas semelhantes a Alzheimer e que são potencialmente reversíveis se tratadas adequadamente. Por isso, antes de se concluir pelo diagnóstico de Alzheimer necessitamos ativamente descartar outras doenças.

A depressão no idoso pode simular o Alzheimer

Se considerarmos especialmente as pessoas com mais idade, temos certas patologias que devem ser pensadas na diferenciação das causas de uma demência. A depressão no idoso é uma delas e pode se manifestar como uma pseudodemência. Diferentemente do indivíduo jovem, o idoso muitas vezes não costuma ter um quadro de depressão tão claro com choro constante, muita tristeza e pensamentos de morte. Não é incomum encontrarmos idosos deprimidos que apenas se queixam de dores pelos corpo, incômodo e mal-estar gerais, alterações de sono, sensação de falta de energia ou vontade apenas de ficar em casa. Existem escalas utilizadas para detectar a depressão no idoso, tais como a GDS, que auxiliam o médico especialista a revelar o problema. Mais importante ainda é o fato que uma das principais queixas do idoso com depressão é a perda de memória com dificuldade de concentração. Esses sintomas podem levar ao diagnóstico precipitado de Alzheimer e confundir o tratamento. Outro fator importante a se levar em conta é que os medicamentos antidepressivos demoram mais para ter efeito em pessoas com mais idade.

Alterações hormonais também podem causar problemas cognitivos

Ao se avaliar um idoso com queixas de memória e cognição temos também que pensar em alterações hormonais e metabólicas, responsáveis igualmente por sintomas na esfera cognitiva e do comportamento. Um exemplo disso é o hipotireoidismo. A diminuição da função da tireóide pode causar sonolência e confusão mental. Do mesmo modo, o diabetes mal controlado e quedas de pressão não identificadas podem levar a flutuações do nível de consciência e devem ser pesquisadas. Alterações do nível de cortisol por deficiência das glândulas supra-renais também podem afetar as funções cerebrais.

Várias doenças podem se manifestar com demência

Do ponto de vista médico, o termo “demência” se refere a um declínio cognitivo adquirido que compromete a funcionalidade do paciente. A forma mais comum de demência é a doença de Alzheimer. Mas existem outras patologias neurológicas que afetam as funções mentais. O diagnóstico correto é fundamental.

Em muitos casos, necessitamos coletar o líquido céfalo-raquidiano, o “líquido da coluna” para identificar vários tipos de doenças como inflamações, infecções e até neoplasias que envolvem o sistema nervoso central. Entre as doenças infecciosas lembramos da sífilis. Embora mais rara nos dias de hoje, a sífilis pode ser responsável por alterações cerebrais muitos anos depois do momento da contaminação. A criptococose, a toxoplasmose e a listeriose podem levar a alterações cognitivas de evolução mais rápida mas merecem ser consideradas. Do mesmo modo, as infecções por HIV tem crescido em termos de prevalência entre pessoas com mais idade talvez pelo uso de medicamentos para disfunção erétil e pelo menor hábito de uso de preservativos para uma relação sexual segura.

Tumores do corpo podem afetar o cérebro à distância

Várias neoplasias(cânceres) de outras partes do corpo podem levar a sintomas neurológicos à distância. São as chamadas síndromes paraneoplásicas do sistema nervoso central. Seu diagnóstico só é possível quando o médico pensa sobre a condição e pede exames específicos. Do mesmo modo, doenças autoimunes podem causar alterações neurológicas pela produção de anticorpos direcionados contra as células nervosas e podem ser tratadas com medicações que diminuem o ataque imunológico.

Hidrocefalia de Pressão Normal

Para completar a lista de diagnósticos alternativos, lembramos a Hidrocefalia de Pressão Normal(HPN). Essa patologia recebeu bastante atenção da mídia após uma matéria feita com o Dr. Fernando Gomes Pinto, neurocirurgião que estuda bastante essa doença. Como ele ressaltou, muitas pessoas são erroneamente diagnosticadas como Alzheimer, mas tem na verdade a HPN. Todavia, essa confusão só acontece com médicos que não são especialistas na área de doenças cognitivas e comportamentais.

A Hidrocefalia de Pressão Normal se manifesta principalmente com 3 sintomas: apraxia de marcha, incontinência urinária e declínio cognitivo. A apraxia de marcha é uma alteração no caminhar em que o paciente anda com passos curtos, como se os pés estivesse imantados no chão. Além disso, também tem dificuldade de fazer a meia volta. A incontinência urinária é um sintoma cardinal da patologia e mais valorizada em homens. Por fim, o declínio cognitivo se distingue do Alzheimer porque tem um padrão de disfunção executiva mais do que de alteração de memória.

O neurologista especialista em cognição e comportamento identificará o caso suspeito e realizará os exames necessários. A ressonância magnética apresenta sinais característicos como enlargamento dos ventrículos, abaulamento do teto do corpo caloso, apagamento dos sulcos no vértex etc.

Para indicar a cirurgia corretiva, o neurologista deve realizar um teste de prova para confirmar o benefício antes do procedimento. Há pelo menos 3 testes utilizados que aplicamos nos  nossos pacientes.

Mesmo na doença de Alzheimer temos muito a fazer pelos pacientes

A doença de Alzheimer é uma doença degenerativa para a qual ainda não temos um tratamento curativo. Os medicamentos disponíveis atualmente ajudam a diminuir um pouco os sintomas comportamentais e cognitivos mas não devolvem o paciente ao estado normal. Embora algumas medicações possam diminuir levemente a progressão da doença, todos os pacientes experimento a evolução dos sintomas e chegarão às fases finais do Alzheimer. Pesquisar outras causas de demência é fundamental pois a intenção de tratamento muda e ao invés de planejar o cuidado de uma doença degenerativa como o Alzheimer, podemos ter a chance de tratar algo potencialmente reversível.

Roger Taussig Soares
Neurologista – São Paulo
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