Porque (muito) videogame pode fazer mal ao cérebro

A ciência ainda não se decidiu se videogames fazem bem ou mal ao cérebro. Algumas pesquisas mostram melhora na capacidade de atenção e no relacionamento social. Outras comprovam maior risco de depressão, ansiedade e isolamento. Mas no dia a dia não temos dúvida que pode haver problemas.

O excesso de tempo nos jogos online causa problemas na escola, diminui a produtividade no trabalho e interfere nas relações familiares. Mais que duas horas por dia de videogame causa uma diminuição no rendimento acadêmico. Essa piora é mais grave quanto mais tempo de exposição aos jogos.

Videogames geram comportamento de dependência

Videogames não são drogas e não causam dependência química como a cocaína e a heroína. Os pesquisadores da área tem tomado cuidado para não fazer uma comparação grosseira entre o abuso de videogames e o consumo de drogas pesadas. Todavia, a OMS reconheceu em 2018 a compulsão por videogames como uma patologia do comportamento.

A questão é que os mecanismos cerebrais envolvidos na compulsão por jogos são semelhantes aos disparados por drogas que causam prazer e excitação. A diferença é que no consumo de entorpecentes, as quantidades de substância ativa no cérebro são altíssimas. Por outro lado, o videogame é capaz de liberar apenas os compostos produzidos naturalmente pelo sistema nervoso e em quantidades fisiológicas.

Jogos se aproveitam de recursos biológico de aprendizado

O reforço positivo é uma dos mecanismos principais para o aprendizado. Quando recebemos algum tipo de prêmio por uma ação realizada, instintivamente repetimos aquele comportamento para ganhar novamente a recompensa. O prazer causado pela recompensa é um reforço positivo para o comportamento.

Esse mecanismo primitivo é simples nos animais e sofisticado nos seres humanos. Um biscoito canino pode ajudar no treinamento de um cachorro que realizará acrobacias para receber o prêmio. De maneira similar, as pessoas repetem atitudes que foram anteriormente premiadas, porém os estímulos são muito mais diversos. O sabor de um alimento, o prazer sexual, a endorfina liberada após exercícios são recompensas simples. Mas nós também podemos vivenciar êxtase com a música, a religião, os atos altruístas e com realidades ilusórias de videogames. De qualquer forma, o cérebro descarrega dopamina, endorfina, serotonina e outros estimulantes em resposta ao prêmio.

Noites de sono perdidas e queda no desempenho escolar

As pessoas querem jogar videogame o tempo todo porque os jogos são construídos especialmente para estimular os sistemas de prazer e recompensa. Além de premiar quem joga com conquistas de níveis, armas especiais, pontuações e rankings, os games também sabem manipular muito bem o cérebro ao fazê-lo. As recompensas são variadas, frequentes e intensas. Isso capta a atenção e dispara o comportamento de persistir no jogo. Por isso, as crianças passam a noite jogando enquanto os pais pensam que estão dormindo.

Antigamente quando um jovem começava a ir mal na escola, pensávamos primeiro em drogas. Hoje o videogame é a primeira coisa que vem à mente.

A razão para termos um sistema de prazer e recompensa

Organismos mais evoluídos, como os vertebrados, são capazes de sentir prazer. O prazer é um reforço positivo para um comportamento. Devido às emoções positivas causadas pela recompensa, áreas do cérebro relacionadas à motivação e iniciativa ficam predispostas a ativação em busca da repetição do prazer.

De fato, como treinamento de aprendizado os reforços positivos são muito mais eficientes do que reforços negativos. É muito fácil estimular uma criança a repetir um comportmento por meio de prêmios. Mas impedir o repetição de um comportamento inadequado por meio de castigo não funciona tão bem. Nós respondemos melhor ao prazer do que à dor.

Qual a razão para termos um sistema de prazer e recompensa? O grande vantagem desse sistema é que com ele os indivíduos passam a suportar melhores condições adversas para ter sua recompensa.

A diferença entre ordinário e extraordinário é aquele pequeno “extra”

O homem das cavernas que dominava o medo e enfrentava as feras, tinha melhor comida como recompensa. Do mesmo modo, aquele que caminhava mais, chegava a territórios mais abundantes em alimentos do que os que ficavam em sua zona de conforto.

O grande valor da recompensa é que ela premia o esforço! Ela aumenta a resistência a condições desagradáveis com a perspectiva do prazer futuro. Quem passou anos estudando na faculdade sabe como valeu o sacrifício quando pega o diploma na mão.

Videogames enfraquecem a resistência porque dão prêmio sem esforço

A quantidade de recompensas que os videogames oferecem não existe na natureza. Na vida real os prêmios aparecem de vez em quando, mas o esforço tem que ser diário. Uma mente acostumada a ganhar reforço positivo continuamente na realidade virtual, dificilmente se sentirá motivada a sair do conforto. Por isso os jovens de hoje preferem ficar em casa no videogame do que sair para comer com a família.

Resiliência é a capacidade de passar por situações adversas sem perder sua própria essência. Essa é uma característica de pessoas maduras que aprenderam a importância da resistência, do esforço e até do sacrifício para alcançar grandes objetivos. O que podemos esperar de um cérebro dependente de prêmios constantes?

As escolas erram ao tentarem se transformar em videogames

Muitas instituições de ensino compreendem que competir contra essa facilidade de prazer oferecida pelos jogos é uma árdua luta. As chances de perder são altas. Por isso, muitas escolas tentam incorporar tecnologias para tornar o aprendizado mais divertido.

Por mais legal que seja uma lousa interativa, ela nunca vai conseguir superar um celular recheado de diversões. É claro que os métodos de ensino têm de se modernizar, mas alunos não são clientes que precisam ser seduzidos a comprar nossos produtos.

Aulas interativas para capturar a atenção

A escola tem que ensinar conteúdos, desenvolver espírito crítico, estimular autonomia e protagonismo de seus alunos. Para prepará-los para a vida, ela também tem que passar a mensagem de que o esforço é necessário para quem quer aplicar seus talentos e alcançar o sucesso.

A receita do sucesso é adiar o prazer

De fato, modelos de personalidade demonstram que pessoas capazes de se empenhar mesmo quando a recompensa é adiada são mais propensas ao sucesso. Somente pessoas com maturidade conseguem postergar um prêmio para ter uma vantagem maior a longo prazo. Um exemplo simples: a maioria das pessoas não consegue poupar dinheiro para comprar uma casa porque gastam tudo à medida que recebem.

Os prazeres momentâneos são mais atrativos para a maioria. Mas quem deseja alcançar a felicidade tem que aprender o valor do esforço.

Enfim, o que fazer com as crianças e seus videogames?

Como pais e responsáveis, não podemos esperar a ciência decidir se videogames são bons ou ruins. Precisamos avaliar a situação do nosso lar e resolver no momento o quanto o videogame tem sido benéfico para nossos filhos.

Estamos em uma época de diálogos. Portanto, podemos explicar para nossas crianças e adolescentes que a realidade virtual é atraente, mas brincar de verdade é muito melhor. Também podemos ensinar que as grandes conquistas são a recompensa de muito esforço. Prêmio sem esforço é ilusão.

Enquanto nossos filhos não são capazes de administrar sua liberdade, devemos colocar limites. Especialmente nos videogames que os deixam indefesos como a casa de doces na floresta, temos que ser a consciência adulta a ditar regras e administrar recursos.

Se tivermos êxito, ajudaremos nossos filhos a desenvolverem autocontrole para que tenham liberdade de ser o que quiserem. Assim poderão planejar suas vidas e alcançar objetivos de médio e longo prazo.

Roger Taussig Soares
Neurologista – São Paulo
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