Religiosidade e Espiritualidade no Câncer de Mama

O câncer de mama é a segunda neoplasia mais frequente nas mulheres, perdendo apenas para os cânceres de pele. Seu impacto na vida da mulher é multidimensional e vai desde a perda de salário para realizar o tratamento até o medo de não sobreviver e deixar seus filhos para trás. A partir do momento em que a mulher sente um nódulo na autopalpação da mama uma sequencia de pensamentos difíceis toma conta de sua mente. Com certa frequência, o medo de ter o câncer adia a busca de um diagnóstico definitivo e pode comprometer o sucesso do tratamento. Na odisseia que a sobrevivente de câncer tem de enfrentar é preciso recorrer a fontes de força e superação. A religiosidade e a espiritualidade é uma dessas fontes.

Religiosidade e Espiritualidade

A maior parte dos brasileiros tem crenças espirituais e são praticantes de alguma religião. De acordo com o censo de 2010, apenas 8% dos brasileiros não tem religião. Nos últimos anos, o papel da espiritualidade livre, sem o compromisso direto com uma filiação religiosa tem aumentado. Muitas pessoas associam a espiritualidade com uma procura de bem-estar, incluindo a alimentação mais ética e saudável, a realização de yoga e meditação e ainda a perspectiva de uma maior conexão com os outros, com o universo, com Deus e consigo mesmas.

A espiritualidade é apreciada como a disposição para a busca da superação do individualismo e também o cultivo de uma atitude mais compassiva e fraterna. A religião delimita-se pela doutrina professada por um grupo e pelas práticas rituais e de vida decorrentes dessa doutrina. Há pessoas muito religiosas, mas não necessariamente espirituais. Inversamente, há pessoas muito espirituais, mas não necessariamente religiosas. Todavia, alguma parte em comum permanece entre as duas porque tanto religião quanto espiritualidade apontam para a mesma meta que é a transcendência ou o sagrado.

Coping religioso

Quando passamos por uma situação difícil, precisamos recorrer a algo que nos fortaleça e nos dê uma orientação para o caminho. O processo de enfrentamento das dificuldades por meio de recursos psicológicos é chamado de coping (pronuncia-se côupin). Dentre as diversas formas de coping, temos o coping religioso que se refere ao uso da religiosidade como estratégia de enfrentamento dos problemas.

O coping religioso é considerado positivo quando a fé e as crenças espirituais ou religiosas colaboram para a aceitação, adaptação e superação dos problemas. Isso pode ser conseguido por uma maior aproximação com a religião e com Deus, por meio do apoio da comunidade espiritual da pessoa ou graças à contemplação das questões existenciais sob a perspectiva benevolente da espiritualidade.

Em contrapartida, o coping religioso é considerado negativo quando as percepções religiosas aumentam o sofrimento da pessoa, em vez de fortalece-la. Alguém com coping religioso negativo pode se sentir punido por Deus, pode questionar sua fé, pode se afastar da igreja e pode duvidar do amor de Deus por ela. Todos esses pensamentos invadem a mente e podem dificultar o tratamento de uma doença tão difícil como o câncer de mama.

Apoio espiritual no câncer de mama

Nos hospitais mais modernos, como aqueles que receberam acreditação pela Joint Commission International, a questão espiritual e religiosa é levada a sério. De fato, o cuidado ao paciente é compreendido como integral e leva em conta todos os aspectos do ser. A dor espiritual deve ser tão valorizada quanto a dor física ou emocional. Mais do que isso, sabe-se que o tratamento do sofrimento espiritual requer uma metodologia própria. Não adianta dar remédios para dor física quando a dor é espiritual.

É preciso reconhecer o sofrimento espiritual e providenciar o apoio religioso em acordo com as crenças do pacientes. Não é correto oferecer outro tipo de religiosidade, muito menos uma conversão de última hora. Em realidade, mulheres com câncer de mama que se converteram a uma outra fé em busca de refúgio tendem a ter piores indicadores de qualidade de vida, segundo estudos científicos.

O objetivo do apoio espiritual no câncer de mama é ajudar a pessoa a ponderar sobre questões da vida, o significado da existência, suas crenças no pós-morte e também permitir que faça certos reparos, resolvendo pendências que possam tirar sua paz de espírito.

Crescimento pós-traumático

Uma experiência tramática é aquela que provoca sofrimento, dano emocional e pode deixar sequelas permanentes. O câncer de mama se encaixa facilmente nessa categoria. Muitas mulheres morrem pelo câncer de mama e o medo da morte é universal entre as pessoas acometidas pela doença. Sobreviver ao câncer de mama também é um desafio. Os tratamentos podem deixar marcas perenes, como a modificação da imagem corporal em virtude de uma mastectomia. Voltar à vida depois de uma neoplasia de mama é como se mudar para um outro país porque você não é mais a mesma mulher e parece que o mundo também não é igual. Esses são fatores de trauma consideráveis.

Apesar da dor, o trauma também pode ser motivo de crescimento e transformação positiva. Isso acontece quando a pessoa consegue inverter a situação: ela deixa de ser a vítima do problema e torna-se a dona da situação. Aceitando que a doença é uma realidade, ela avalia como utilizar a experiência para seu amadurecimento e crescimento como pessoa.

O trauma é ressignificado e uma nova compreensão da vida se instala. Valores são revisados, laços afetivos são redimensionados e um novo contrato consigo mesmo se estabelece. Pessoas que cresceram com a doença desenvolvem um novo respeito por si mesmas e não se deixam abater tanto por coisas triviais. As práticas de autocompaixão e de perdão, como ho’oponopono, são úteis nesse renascimento.

A experiência do câncer não surge com a finalidade de fazer a pessoa crescer, mas se no meio do sofrimento é possível encontrar novos motivos de felicidade e paz, que assim seja.

Brazilian Breast Cancer Symposium

Participamos do BBCS 2019 em Goiás e tivemos a oportunidade de falar sobre Cancer de mama e espiritualidade para o público de pesquisadores e profissionais da saúde. Falamos para uma audiência de profissionais da medicina, da enfermagem, da psicologia, entre outros. Compartilhamos abaixo um vídeo com a aula apresentada no congresso especialmente gravada para nossos leitores.

Fico à disposição para conversar com os interessados sobre o tema. Há muito o que fazer!

 

Roger T. Soares
Neurologista – SP
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Comentários
  • Agradeço imensamente a generosidade de compartilhar esse trabalho tão importante e tão respeitosamente exposto, desejo sinceramente doutor que você tenha muitos discípulos após essa apresentação… Não tenho a menor dúvida que ter uma religião e desenvolver a espiritualidade é o caminho para enfrentar com dignidade as adversidades.

  • Bom dia a todos, adorei o trabalho! Parabenizo! E sigo afirmando a importância da parceria religiosidade/clínica para o sucesso e bem estar de fora geral dos pacientes e também familiares. Infelizmente, a humanidade de forma geral tem se perdido em meio as atribulações cotidianas e num dado momento tudo muda de figura; quando nos deparamos com um diagnóstico efetivo de um câncer ou outra doença qualquer. Neste momento as pessoas tende a se voltarem para o sagrado e por vez fazer uma trajetória da vida de forma geral. Em minha experiência de vida pude observar o quanto o papel da fé é fundamental na libertação do ser seja ela para um restabelecimento do físico ou para a preparação para passagem para o outro plano. Tendo em vista que até para o encerramento da vida aqui no plano das formas se faz necessário o ensaio, a preparação, a aceitação de que estamos aqui de passagem, desta forma num dado momento deixaremos este plano. Adorei a abordagem, acredito neste processo e apoio para a cada dia está abertura se concretize com a aceitacao dos profissionais da medicina em prol da humanidade.

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