LATE: Nova causa de demência é confundida com Alzheimer

Uma nova doença do cérebro foi descoberta e ela causa sintomas semelhantes ao Alzheimer. Trata-se da LATE, sigla inglesa que corresponde a Limbic-predominant Age-related TDP-43 Encefalopathy”. A doença vem sendo pesquisada há alguns anos e uma publicação online na revista Brain em 30/04/2019 descreve os padrões da doença, os critérios diagnósticos e a necessidade de maior reconhecimento dessa entidade. Em geral, pessoas com essa doença são diagnosticadas como se fossem portadoras de Alzheimer.

Porque a LATE é confundida com Alzheimer

A doença de Alzheimer costuma se apresentar inicialmente com sintomas de perda de memória. Isso acontece porque as primeiras áreas afetadas pelos emaranhados neurofibrilares no Alzheimer são cruciais para os mecanismos de memória.

Os hipocampos estão localizados nas porções mesiais dos lobos temporais. Eles são o principal centro de formação de novas memórias e recuperação de memórias estocadas. A atrofia dos hipocampos na doença de Alzheimer responde pelos sintomas de amnésia.

Do mesmo modo, a LATE acomete principalmente os hipocampos que fazem parte do sistema límbico. Por isso, a letra L da sigla refere-se à predominância do sistema límbico. Além dos hipocampos, também o complexo amigdaloide da região temporal e os giros frontais inferiores são acometidos pela patologia.

Como tanto o Alzheimer como a LATE afetam primariamente as regiões de memória, as doenças são confundidas. De fato, a LATE foi descoberta graças a estudos de autópsia realizados em pacientes que durante a vida foram tratados como Alzheimer. Só que nesses casos, encontrou-se uma proteína diferente no cérebro: a TDP-43.

O acúmulo de TDP-43 justifica parte dos sintomas de Alzheimer

As alterações neuropatológicas esperadas na doença de Alzheimer são o acúmulo da proteína amiloide beta e da proteína tau. Os acúmulos de amiloide beta nos espaços extracelulares são chamados de placas amiloides ou neuríticas. O acúmulo de proteína tau dentro dos neurônios forma os chamados emaranhados neurofibrilares. Quanto mais depósitos de amiloide e proteína tau, mais grave é a doença de Alzheimer.

Placas amilóides em vermelho e emaranhados fibrilares em marrom – University of Texas Southwestern

Todavia, em alguns estudos retrospectivos com pessoas muito idosas (mais de 80 anos) notou-se que os sintomas clínicos eram mais intensos do que o esperado pela quantidade de amiloide e tau encontradas no cérebro. Essa inconformidade levantou a suspeita que mais alguma coisa estaria gerando sintomas cognitivos entre os idosos mais velhos. Atualmente, sabe-se que além do Alzheimer, alguns indivíduos apresentam acúmulo de TDP-43.

Os primeiros indícios da LATE foram encontrados ainda em 1994 por Dickson e colaboradores. Eles avaliarem 13 idosos com sinais de demência que não tinham as alterações de Alzheimer no cérebro. Em vez de amiloide e proteína tau, encontraram uma atrofia e esclerose nos hipocampos.

Em 2006 identificou-se a TDP-43 como a proteína responsável por um grupo de demências conhecido como Degeneração Lobar Fronto-Temporal e por casos de Esclerose Lateral Amiotrófica. Essa proteína exerce funções de controle genético ao se ligar ao DNA e ao RNA. Entretanto, nos casos patológicos, a forma fosforilada da TDP-43 se acumula no núcleo e no citoplasma das células, causando a morte celular.

A LATE aparece em indivíduos muito idosos

A encefalopatia por acúmulo de TDP-43 no sistema límbico está relacionada com a idade. Até onde sabemos a doença aparece após os 80 anos quando, curiosamente, a incidência de Alzheimer diminui. Não se encontrou ainda uma relação entre as duas patologias.

De acordo com estudos atuais, cerca de 25% dos idosos acima de 80 anos apresentam alterações de LATE que justificam seus sintomas cognitivos. Nos estudos de autópsia, os acúmulos de TDP-43 nas regiões típicas de LATE estão presentes entre 20 e 50% dos idosos com mais de 80 anos.

A conclusão é que o acúmulo patológico de TDP-43 tem sido o verdadeiro responsável por problemas de memória em um número considerável de idosos extremos.

Em cima, à esquerda um hipocampo normal. À direita observa-se o hipocampo atrofiado pela LATE

O impacto da LATE para a saúde pública

Cada vez mais temos pessoas ultra-longevas que ultrapassam os 85 anos de idade. Nessa faixa etária, a fisiologia do corpo humano é diferente dos idosos “jovens” entre 60 e 75 anos. O conhecimento das particularidades dos idosos extremos tem avançado bastante e já há geriatras especializados em cuidar dessa população.

A encefalopatia por TDP-43 no sistema límbico é uma dessas doenças que se apresenta nas fases mais avançadas da vida. Até recentemente, atribuíamos as alterações demenciais dos muito idosos somente ao Alzheimer, mas hoje sabemos melhor.

Serão necessários mais estudos e novas políticas de saúde pública para cuidar dos muito idosos. Espera-se que novos biomarcadores para TDP-43 sejam desenvolvidos para detectarmos a doença LATE e iniciar pesquisas que levem a tratamentos adequados. Não sabemos ainda, por exemplo, se os medicamentos para Alzheimer tem algum efeito nesses pacientes.

O conhecimento científico é progressivo e dinâmico. À medida que novos fatos são descobertos, precisamos de estudos específicos para saber como lidar com eles. A partir daí, o caminho é transportar os dados de pesquisa para o cuidado dos pacientes que deve ser sempre individualizado.

 

Roger Taussig Soares
neurologista – São Paulo
crm 69239

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