Escolha viver em um mundo no qual você é feliz

Pollyanna tinha tudo para ser infeliz e se sentir miserável. Filha de uma mãe abandonada pela própria família por ter decidido se casar com um ministro de igreja pobre, Pollyanna era a caçula e a única sobrevivente da família. Primeiro morreram seus irmãos, depois sua mãe e, por fim, seu pai. Aos 11 anos foi morar com uma tia materna que a recebera por obrigação. Apesar da situação totalmente desfavorável, Polyanna conseguiu virar o jogo e ainda melhorou a vida das pessoas à sua volta enquanto ocupava-se de ser feliz.

No romance de Eleanor Porter de 1913, Pollyanna era uma otimista incurável e confrontava as adversidades procurando enxergar sempre o lado positivo dos ocorridos. Em momentos de maior tristeza, a garota fazia o “Jogo do Contente” e se imaginava feliz, a despeito da realidade dura. O impacto dessa publicação centenária ainda persiste e continua sendo estudada pela psicologia.

O “princípio Poliana” refere-se a uma teoria psicológica que descreve a tendência que os seres humanos têm de se lembrar das vivências por um viés positivo. A maior parte das pessoas tendem a pintar suas recordações com cores mais felizes do que os acontecimentos reais. Além disso, temos uma predisposição de identificar aspectos positivos mais rapidamente e com mais facilidade do que os aspectos negativos de cada experiência. Esse viés de otimismo é apreciado como favorável pela psicologia positiva atual, desde que dentro de certos limites.

Livro “Pollyanna” de Eleanor H. Porter

A realidade da existência

Geralmente as pessoas mais céticas entendem que o “jogo do contente” é um artifício de fuga da realidade. Seria ele uma forma de faz-de-conta para escapar à crueldade da vida real. Mas essa é apenas uma maneira de enxergar as coisas. Podemos certamente fazer a pergunta: O que é real? Qual mundo é o mundo real? O que é a realidade?

A perspectiva dos pessimistas é que o mundo é horrível e que quanto mais sofrida e dolorosa for a descrição da realidade, mais próxima ela será do real. O mundo real é o da violência, da desigualdade social, da miséria e da fome, dos assassinatos com requinte de crueldade. A vida na penitenciária é o retrato da sociedade inteiramente corrompida. Não há como crer nos políticos e não há salvação para a sociedade. O homem é o lobo do homem, como disse Hobbes.

Já sob o ângulo dos otimistas, nas últimas décadas a pobreza no mundo diminuiu, as mulheres tem tido cada vez mais acesso ao mercado de trabalho, as instituições democráticas permitem a alternância de poder e a internet desmontou o monopólio das grandes corporações de mídia. Esses fatos positivos não são verdadeiros? Então por que muitos não conseguem apreciá-los?

Qual dessas realidades é mais real?

  • Um garoto cresce em meio ao tráfico numa favela carioca e morre antes de completar 15 anos, trocando tiros com uma facção rival.
  • Uma médica francesa de 25 anos passa dois anos na África como membro do grupo Médicos Sem Fronteira. Ela cuida de crianças pobres, famintas e doentes salvando algumas centenas de vidas.
  • Um grupo de monges tibetanos passa a vida em meditação procurando exercitar a compaixão a todos que encontram, inclusive os pequenos animais que habitam o solo.
  • Um filho de milionário dedica-se a usufruir de festas e prazeres sensuais proporcionados pela fortuna que ele não construiu.
  • Uma ativista feminista luta para promover o respeito à diversidade de gênero, mantida pelo dinheiro que herdou do pai, um falecido industrial.
  • Um bancário trabalha por 30 anos e se aposenta. Dedica-se à família e a cuidar do jardim até o fim da vida.

Qual dessas realidades é mais real? Como podemos dizer que um vive na ilusão e outro na realidade se, em última instância, todos colherão os frutos de seus atos?

Na verdade, todas essas vidas são igualmente reais e representam a pluralidade da existência. Todos nós temos um pé na realidade e outro na alienação. Não somos capazes de viver nos múltiplos mundos existentes ao mesmo tempo. Pertencemos ao mundo no qual escolhemos viver e estamos alienados para as outras realidades. O importante é que temos a liberdade de escolher qual é a nossa realidade.

Monges tibetanos fazem mandala de areia

O cérebro como um tofu

Dizem que o cérebro é como o tofu, adquire o sabor do seu entorno. O tofu tem pouco sabor por si, mas quando misturamos com shoyu, cebolinha, um pouco de gengibre ralado e talvez um pouco de katsuobushi… hummmm!!! Que delicioso fica o tofu!

Se mergulhamos diariamente o cérebro em notícias de violência dos programas sensacionalistas, ficamos com a impressão que o mundo é só tristeza e desgraça. Para quem habita os planos da deep web e compartilha vídeos hediondos diariamente, seus sonhos serão povoados com tais conteúdos horrendos. Mas pessoas que investem sua energia em atitudes que produzem benefícios para os outros, sentem-se recompensadas e enxergam o mundo com mais esperança.

Muitas pessoas hoje em dia ficam doentes porque se intoxicaram com imagens compartilhadas no WhatsApp ou se desgastaram em discussões políticas nas redes sociais. Afastar-se dessas coisas é fugir da realidade ou é preservar a sanidade?

O mundo é feito por camadas de realidade, planos diferentes de existência que se entrelaçam e se tocam. A mente é a chave para a felicidade porque ela decide onde quer viver, independente da circunstância em que se encontra.

A irmã Dulce cuidava de pessoas sujas, doentes e infectas diariamente, mas sua mente vivia no paraíso criado pela compaixão com a qual se dedicava aos enfermos. Chico Xavier viveu na pobreza e se dedicava a todos que o buscavam, mas sempre sentiu que tinha mais do que precisava. Muitas pessoas são verdadeiramente felizes mesmo em um ambiente inóspito.

Por outro lado, estudos mostram que pessoas que têm mais dinheiro sentem mais a sensação de carência do que quem tem pouco. Gente com mais posses tende a ser mais insatisfeita com a vida. Mais que isso, pessoas humildes são mais predispostas a compartilhar o pouco que têm e demonstrar solidariedade com os vizinhos necessitados. Enquanto isso, a classe média não sabe quem mora no apartamento ao lado.

Irmã Dulce: a felicidade da dedicação ao próximo

Como agir no mundo

As diversas realidades coexistem e não podemos simplesmente escolher nosso mundinho particular, ignorando todo o resto. Se fizermos isso, não seremos felizes. Seremos apenas egoístas.

Como reconhecer as injustiças do mundo, as múltiplas realidades e viver um mundo no qual se é feliz?

Em primeiro lugar, ninguém é totalmente feliz. Segundo o budismo, somos todos interdependentes e nenhuma pessoa pode ser completamente feliz enquanto existir alguém infeliz no mundo.

Então o segredo é viver a sua vida pensando em impactar o todo positivamente. Fazer o melhor de si no seu campo de atuação colaborando para a construção de um mundo melhor para todos.

Gandhi dizia: “Seja você a mudança que você quer ver no mundo”.

Paul McCartney compartilhava o slogan ambientalista: “Pense globalmente, haja localmente.” (Think Globally, Act Locally).

Por fim, Jordan Peterson, psicólogo canadense autor de “12 Rules for Life” ensina: “se você quer mudar o mundo, comece mantendo seu quarto arrumado”.

Filme “A Corrente do Bem”

O seu pequeno mundo faz o grande mundo

A partir do momento em que escolhemos uma forma de viver, criamos um mundo. Somos deuses no sentido de que temos o poder de criação do nosso próprio mundo. E o nosso mundo é parte constituinte e integrante do mundo maior. Somos todos um pouco autores do mundo à nossa volta. A contribuição que damos para a existência coletiva depende exclusivamente de nossas atitudes e do mundo que criamos ao nosso entorno.

Se você é capaz de criar um mundo no qual você é feliz, tal como Pollyanna, você será capaz de mudar o mundo das pessoas à sua volta. Desse modo se afeta todo o sistema.

Experimente ser gentil e educado diariamente com todos. Cuide bem de todas as pessoas que chegarem até você. Mesmo dentro da profissão existem oportunidades de se fazer caridade e praticar a compaixão. Em trinta anos de carreira, qualquer um pode mudar a vida de milhares de outras pessoas. Por exemplo, um professor de escola pública tem apenas o giz como arma, mas sua dedicação pode evitar que muitos jovens caiam na marginalidade.

Cada indivíduo é um nó dentro da imensa rede que constitui a realidade. Quando um nó se modifica, toda a rede é impactada. Para mudarmos o mundo, basta agirmos com responsabilidade e escolhermos a felicidade.

Roger Taussig Soares
Neurologista – São Paulo
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