Mentores de carreira na medicina

Nos congressos internacionais, como os da Academia Americana de Neurologia, sempre fico impressionado com os agradecimentos ao final de cada palestra. Além de reconhecer o trabalho dos colaboradores e parceiros, os apresentadores muitas vezes expressam gratidão aos seus mentores. Dedicam seu sucesso àqueles que os orientaram e demonstram afeto por seus ídolos. Essa cultura deveria ser mais difundida no nosso país.

A carreira médica não é simples, nem fácil. A quantidade de conhecimentos que o estudante de medicina deve absorver para se tornar um profissional competente é avassaladora. O vocabulário médico poderia ser considerado um novo idioma e há quem recomende a criação de uma disciplina dedicada à linguística médica. Mas além de nomes, o estudante deve aprender sobre o funcionamento do corpo desde o nível molecular até o nível ético.

Ao longo do aprendizado, incluindo faculdade, residência e pós-graduações, a dedicação exclusiva obrigatória pode fazer com que o futuro médico se sinta deslocado de outras questões fundamentais da vida, como a maneira de gerir seu futuro negócio.

Medicina é sacerdócio e também ofício: precisa de remuneração adequada. Entretanto, alcançar um ganho justo não é fácil, pois as leis de mercado determinam salários e as fontes pagadoras, como o SUS e os convênios, guiam-se por metas comerciais e indicadores. Considerando o grande número de novas faculadades de medicina, os valores pagos tem dependido mais da disponibilidade de profissionais do que da competência dos mesmos.

Encontrar o melhor modelo de negócio que permita a realização profissional e uma vida digna é um problema cada vez mais intricado. Essa parte da medicina não é ensinada na faculdade e, com raras exceções, o aluno entra no mercado de trabalho como um ser alienígena. Traçar um plano financeiro para a vida é algo complicado para os médicos. Por isso muitos dizem que são bons de trabalho, mas ruins de ganhar dinheiro.

Além das questões prosaicas, muitos médicos também sonham com uma carreira acadêmica na qual possam desenvolver pesquisas e dar aulas. Contudo, bem sabemos que no Brasil a vida de pesquisador e cientista é desafiadora e, com frequência, frustrante.

Para guiar o jovem médico no campo profissional e acadêmico entra em cena o mentor. Ele é um profissional mais velho, bem-sucedido e disposto a mostrar o caminho para os mais jovens. Ele serve de inspiração e modelo de conduta. Mas além disso, ele abre portas e aponta as direções para seu protegido. Interessado no desenvolvimento de seu seguidor, ele compartilha o “caminho das pedras” e adverte contra os riscos de cada passo. Também tem a grandeza de reconhecer os erros que cometeu e os aponta para que o jovem não tenha que passar pelos mesmos percalços.

A ideia é de que as gerações futuras devem se beneficiar dos acertos e erros dos mais velhos, de modo que a sociedade como um todo progride. O médico mentor tem consciência de que não é eterno e enxerga nos seus alunos uma chance de continuidade, para que seus valores, técnicas e linhas de pesquisa sobrevivam além dele.

Josep Dalmau, neurologista que descobriu a encefalite anti-NMDA teve como mentor o ilustre Jerome B. Posner

Nosso país carece da cultura de mentoria. Talvez por ela não acontecer espontaneamente, há iniciativas de formalizar esse modus operandi, como o programa de mentoria da USP. Minha experiência de quase 30 anos de formado diz que a cultura do médico brasileiro é oposta à da mentoria. Por outro lado, nos países desenvolvidos a importância do mentor é ressaltada e há incentivos para que neurologistas mais velhos se tornem mentores eficientes.

Em muitos lugares, o que prevalece é a cultura do “peixinho”. O chefe de um serviço contrata médicos mais jovens que servem como mão de obra qualificada. Esses peixinhos trabalham com a esperança de no futuro se tornarem também chefes, repetindo o padrão.

Aparentemente, a diferença entre brasileiros e americanos está na lógica do processo incrustada na cultura. Os brasileiros seguem a lógica da carência, pela qual não há o suficiente para todos. Por essa lógica, o chefe garante o seu lado e tira a maior fatia do bolo para si. Sua pretensão é de se manter no topo da cadeia alimentar o máximo de tempo possível. Ele garante seu posto mesmo que para isso tenha que sufocar o crescimento dos subordinados.

Os mentores americanos funcionam por um prisma diferente. Eles acreditam na lógica da abundância e por isso enxergam a medicina como um negócio em expansão. A cada geração aumenta no número de clientes e as oportunidades de negócio por meio de novas tecnologias. Desse modo eles podem investir no crescimento dos seus subordinados para que ampliem seu raio de abrangência e levem seu legado para o futuro. O desejo do mentor é que o aluno supere o mestre.

Falamos aqui da profissão médica que conhecemos razoavelmente bem. Mas é provável que essas visões de carência e restrição aos mais novos exista em outras profissões e comunidades. Eu mesmo já vi isso acontecer em diversos cenários. Assim, o que proponho e suplico é que os mais velhos não vejam os mais novos como ameaças, mas sim como herdeiros. Às gerações mais novas cabe a tarefa de compreender o que existe e avançar para níveis mais altos e melhores. Honrar o passado e construir o futuro: esse é o sistema das sociedades prósperas.

 

Roger Taussig Soares
Neurologista
crm 69239 SP

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