Esclerose Múltipla, mielina e colesterol: nova associação descoberta

Atualizado pela última vez em 16/02/2024

A Esclerose Múltipla é uma doença inflamatória, de origem autoimune, que causa danos sobre o sistema nervoso central. Um dos primeiros e principais alvos do sistema imunológico no cérebro é a bainha de mielina que envolve e protege os neurônios. Por causar a destruição da bainha de mielina, a Esclerose Múltipla é conhecida como uma doença desmielinizante. Um dos principais componentes da bainha de mielina é o colesterol. Veremos nesse artigo como os níveis de colesterol interferem com o início e a evolução da esclerose múltipla.

O colesterol é um tipo de gordura que faz parte da estrutura de muitas células, especialmente das membranas celulares. Ele é essencial para as funções cerebrais e é um dos principais componentes da bainha de mielina. Os níveis altos de colesterol podem ser maléficos para o desenvolvimento da Esclerose Múltipla. Várias pesquisas buscam entender o papel do colesterol nas doenças desmielinizantes e modificar a evolução da doença pelo controle dessa gordura.

O que é o colesterol

O colesterol é uma gordura própria dos animais. Ela compõe 30% de todas as membranas celulares. As plantas não produzem colesterol, mas sim análogos denominados fitoesteróis. O colesterol é necessário para a composição da vitamina D, dos hormônios sexuais, do cortisol e também da bainha de mielina.

As principais fontes dietéticas são as carnes vermelhas, a gema de ovo, fígado, rins, óleo de peixe e manteiga. Como o colesterol é uma gordura, ela não se mistura com água e para ser transportada no sangue ele é empacotado em proteínas, formando as lipoproteínas.

A dosagem no sangue é bastante comum porque sabemos que o excesso de colesterol está relacionado a doenças vasculares, infarto cardíaco e acidentes vasculares cerebrais.

Nos testes de laboratoriais dosamos as formas do colesterol denominadas lipoproteínas, com suas diferentes densidades:

  • HDL: lipoproteína de alta densidade é considerada protetora
  • LDL: lipoproteína de baixa densidade é chamada de “colesterol ruim” porque ela se deposita nas artérias levando ao seu entupimento
  • E ainda: IDL, de densidade intermediária, VLDL de densidade muito baixa e quilomícrons que são as menores de todas

Essas formas de colesterol são utilizadas como biomarcadores para o controle das doenças e seus níveis interferem com a evolução da esclerose múltipla.

Esclerose múltipla e colesterol

Segundo estudo publicado em 01/08/2019 no European Journal of Neurology, o colesterol total e o LDL elevados na esclerose múltipla estão associados a uma progressão mais grave, em termos de incapacidades e comprometimento funcional.

No começo da doença, a presença de elevação de LDL e de Apolipoproteína B (marcador associado ao LDL) aumenta o risco de haver mais lesões cerebrais. Por outro lado, o aumento do HDL e da Apo A, que são considerados protetores, está relacionado a uma maior integridade da barreira hemato-encefálico e maior proteção para o cérebro.

Com esses poucos dados, já podemos fazer duas recomendações que podem aumentar a saúde cerebral dos portadores de esclerose múltipla:

  • Procurem manter uma dieta saudável, com pouca gordura animal
  • Façam exercícios regularmente

A dieta com pouca gordura abaixa os níveis de LDL que é danoso ao cérebro e pode diminuir o risco de lesões desmielinizantes.

Exercícios físicos regulares aumentam os níveis de HDL que é protetor e pode ajudar a manter a integridade cerebral.

Ainda na pesquisa citada, realizada na Universidade Estadual de Nova Iorque, em Buffalo – NY, indivíduos com níveis mais altos de HDL e Apo A ao longo de 5 anos de acompanhamento tiveram menor atrofia cerebral e menor risco de converterem para a forma progressiva secundária da EM. Por outro lado, elevações no LDL estiveram associados com lesões mais volumosas visíveis na ressonância.

Entenda como a pesquisa foi feita

No estudo realizado por Nitya Murali e colaboradores, foram selecionados 154 indivíduos que foram acompanhados por 5 anos, dosando periodicamente os níveis de colesterol e apolipoproteínas associadas.

Desse total, 41 eram pessoas saudáveis que serviram de controle, 76 eram portadoras da forma remitente-recorrente da Esclerose Múltipla e 37 tinha a forma progressiva primária da doença.

O que se verificou foi que maiores ganhos de HDL e APO-A ao longo do tempo se associaram a uma maior proteção do cérebro. O efeito observado foi uma menor chance de ter atrofia da substancia cinzenta ou do córtex cerebral.

Em contrapartida, maiores aumentos de LDL e APO-B ao longo do tempo se associaram a uma menor proteção do cérebro. Pessoas com níveis mais altos do chamado “colesterol ruim” tiveram mais lesões desmielinizantes e estas eram mais volumosas. Isso foi medido por ressonância magnética.

Limitações do estudo

Apesar de chamar a atenção para um fator importante e potencialmente modificável, essa pesquisa indica a necessidade de maiores estudos.

Ainda não sabemos se diminuir os níveis de LDL e aumentar os de HDL terá um impacto na evolução da esclerose múltipla. Existem alguns estudos em andamento avaliando a utilização de sinvastatina em vários estágios da Esclerose Múltipla para checar a questão. Mas, como já se sabe que o colesterol elevado é causa de infarto cardíaco e AVC, então independente de qualquer coisa, merece tratamento por si só.

Além disso, é preciso ressaltar que ter o colesterol alto não aumenta o risco de desenvolver esclerose múltipla. A pesquisa não foi desenhada para detectar o risco de desenvolver esclerose multipla em portadores de dislipidemia. O estudo foi feito para ver o impacto do colesterol em pacientes já diagnosticados com a doença.

Por fim, como os níveis de colesterol dependem muito de fatores genéticos, não é possível determinar se é a gordura em si que piora a EM ou se o perfil genético dos pacientes com colesterol alto está associada com uma evolução da doença mais ou menos agressiva.

Estilo de vida saudável é favorável em todos os aspectos

Pessoas convivendo com Esclerose Múltipla são favorecidas por um estilo de vida mais saudável. É conveniente dormir bem, evitar o calor, controlar as jornadas de trabalho, não fumar e fazer exercícios regularmente.

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Dieta saudável protege o cérebro contra as lesões da esclerose múltipla

Além de ajudar na fadiga, os exercícios melhoram o perfil lipídico, diminuindo o colesterol ruim e aumentando o protetor, o que pode ser bom também a longo prazo na evolução da doença. Uma alimentação saudável também reduz as gorduras nocivas e permite que o organismo funcione mais levemente.

Considerando os achados desse recente estudo e os conhecimentos já estabelecidos, podemos incentivar ainda mais nossos amigos portadores a cuidar bem do corpo para que tenham uma melhor qualidade de vida.

Roger Taussig Soares
neurologista – são paulo
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Foto de roger.soares
Dr. Roger Soares é médico neurologista, graduado em medicina em 1990 pela Universidade Estadual de Londrina e especializado em Neurologia pelo Hospital das Clínicas da USP. Mora em São Paulo há mais de 30 anos e é médico credenciado dos maiores hospitais da capital paulista. Atualmente se dedica exclusivamente ao tratamento de seus pacientes particulares no consultório no Tatuapé.

Respostas de 2

    1. Boa pergunta, Ana
      Isso tem sido motivo de muita desinformação.
      Vamos fazer uma comparação bem simples.
      Imagine que você vai tomar uma xícara de café e quer adoçar o café com açucar. Você adiciona o açucar e mexe com uma colher. O café fica mais doce.
      Quanto mais você adiciona açucar, mais doce fica o café. Porém chega um ponto em que você adiciona mais açucar e o café não fica mais doce porque o açucar não consegue ser mais dissolvido no líquido e vai para o fundo da xícara.
      Se você continuar colocando mais açucar, você ficará com uma grande quantidade de açucar depositado no fundo porque a solução de café com açucar já está saturada.(solução saturada é um conceito da fisico-química).
      Do mesmo modo, o excesso de colesterol não favorece mais a mielinização. A sobra de colesterol começa a se depositar nas artérias, formando placas de colesterol de dificultam a circulação. Isso acaba piorando a saúde do corpo e do cérebro.
      Para finalizar, uma nota curiosa: aparentemente alguns medicamentos que diminuem o colesterol, como a sinvastatina, parecem ser benéficos para os portadores de esclerose múltipla. Estudos científicos já foram realizados utilizando sinvastatina na dose de 80mg por dia em esclerose múltipla, mas os benefícios foram pequenos de modo que não utilizamos a estatinas como tratamento para EM. Porém se o paciente precisa do remédio por outra razão, sabemos que será útil também no tratamento neurológico.
      Roger Soares

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