Quando o paciente cura o médico

Durante minha formação universitária, na década de 1980, aprendi que o médico deveria manter um distanciamento do paciente para preservar sua imparcialidade. O ideal científico era, e ainda é em certa medida, a objetividade. Durante uma consulta, esperava-se que o paciente fornecesse os dados de história espontânea, respondesse às perguntas do doutor, depois se submetesse ao exame físico e, por fim, aguardasse pacientemente a resposta do médico como se fosse um veredito final de vida ou morte.

Em nome da objetividade e imparcialidade, muitos médicos foram acostumados a desumanizar o paciente. Quanto menos vissem a pessoa, melhor conseguiriam enxergar a doença. A visão analítica científica procurava isolar a doença do doente, queria ver o órgão acometido e nada mais.

Pouco importava como estava o relacionamento familiar, a situação financeira ou a percepção de si mesmo como doente. Na verdade, quando um paciente começava a contar sobre suas questões pessoais, muitos médicos ficavam tensos. Se as emoções pareciam ser importantes demais para o doente, os médicos começavam a vê-lo com uma certa desconfiança e passavam a duvidar se seus sintomas eram realmente “orgânicos” ou puramente “funcionais”.

Tenho vergonha de dizer que muitas vezes presenciei situações em que uma pessoa com sintomas psicogênicos era desdenhada por médicos e enfermeiros enquanto manifestava uma crise conversiva dentro do hospital. Naquela época, uma crise conversiva era tão abominada quanto uma simulação, embora não sejam a mesma coisa.

Lembro-me também de na residência ter sido criticado, certa vez, por ficar na sala de emergência do hospital por 30 minutos, apenas observando um paciente tendo sua crise psicológica.  A recomendação técnica de tratamento era de tirar as pessoas à volta que pudessem reforçar o comportamento, mas minha atitude foi vista com repulsa por colegas. Era como se eu tivesse profanado a santidade da “sala de parada”, exclusivamente dedicada à emergência fatal.  Como o pronto-socorro estava lotado e a sala de emergência vazia, acho que fiz bom uso dela durante aquela meia hora.

Não me arrependo do cuidado com esses pacientes porque em outro momento salvei uma paciente gestante no mesmo hospital. Ela estava prestes a ser novamente entubada por uma crise conversiva e já tinha vindo de outro hospital onde foi parar na UTI por uma crise conversiva. Graças ao olhar que desenvolvi para fazer o diagnóstico correto, consegui intervir a tempo de evitar que a vida dela e do bebê fossem colocadas em risco.

É curioso como atualmente os médicos têm medo de serem trocados por computadores. O desenvolvimento das novas tecnologias de diagnóstico e a possibilidade, crescente, da telemedicina são vistos como ameaça pela classe médica. Todavia, esquecem-se que por décadas comportaram-se eles mesmos como máquinas e trataram seus pacientes como objetos.

O excesso de objetividade transformou os médicos em técnicos de alto padrão e a profissão, um algoritmo de tomada de decisões e resolução de problemas. Se é para fazer apenas isso, talvez um computador tenha melhor desempenho que essa ciência fria. Quem sabe esse choque de realidade comece a mudar a cabeça de alguns profissionais que não se atentaram para a dimensão humana da medicina.

Quantas vezes as pessoas são atendidas por médicos em prontos-socorros ou em ambulatórios, sem o médico nem olhar para o rosto do paciente? Quantas consultas acontecem sem que o paciente possa contar o que sente, resignando-se apenas a responder quando perguntado?

Felizmente, o pêndulo da história tem promovido uma recuperação dos valores essenciais da medicina. Cada vez mais se compreende que prestar atenção na pessoa doente permite um diagnóstico mais amplo, consome menos recursos e gera maior satisfação. Atualmente, existem grupos profissionais dedicados ao desenvolvimento da teoria e prática dessa medicina da arte de curar. Um exemplo é a Slow Medicine que tem uma comunidade em expansão no Brasil.

A importância da objetividade na ciência

O processo científico visa a produção de um conhecimento da verdade empírica dos fenômenos, ou seja, o objeto do conhecimento é abordado por meio de experimentos científicos práticos.

Idealmente, convém isolar o problema a ser estudado de tudo que possa interferir ou gerar confusão. Por exemplo, se queremos testar um medicamento para a hipertensão arterial é conveniente que o paciente se mantenha com a mesma dieta durante os testes, pois um aumento do consumo de sal pode falsear os resultados.

Além de isolar o objeto de estudo das variáveis que geram confusão, recomenda-se um distanciamento entre o observador e o objeto. Isso porque o envolvimento próximo do pesquisador pode prejudicar a imparcialidade do seu julgamento. Além disso, a simples existência de um observador já é capaz de comprometer a espontaneidade de um fenômeno. Basta pedir para uma criança dançar na frente dos adultos para vermos como a plateia modifica o comportamento normal. Quando um paciente entra em uma pesquisa, traz consigo a esperança de ser beneficiado e isso gera um efeito que precisa ser levado em conta.

Os melhores estudos científicos para testar novas drogas são aqueles denominados de duplo-cego controlado por placebo. Nesses estudos, criam-se dois grupos de pacientes sendo que um grupo receberá a medicação em testes e outro receberá um placebo, um comprimido com a mesma aparência, mas sem a substância ativa. São chamados de duplo-cego porque nem o paciente, nem o médico sabem se o paciente está recebendo a medicação ou o placebo.

Essa forma de estudos é importante justamente porque é capaz de prover dados confiáveis sobre eficácia, segurança e riscos de um novo tratamento. Ela serve para gerar o conhecimento científico que o médico vai utilizar para tratar os pacientes da vida real. Entretanto, no consultório é preciso analisar caso a caso e valorizar os aspectos subjetivos.

A medicina de consultório deve ser individualizada

A estatística tem suas pegadinhas. Digamos que um medicamento seja muito eficiente e seguro. Suponhamos que a chance de morrer devido a medicação seja de 1 para cada 10.000 pacientes tratados. Tendemos a olhar para a pessoa na nossa frente e imaginar que a chance de que ela morra seja de 0,01%, caso tome a medicação, o que é bastante aceitável. Entretanto, essa chance aumenta para 100% se ela for a pessoa que vai morrer pela droga e quando descobrirmos, será muito tarde.

Existe uma anedota em que o paciente pergunta ao médico qual a chance de morrer com o tratamento. O médico responde que apenas uma em mil e que já tratou 999 pacientes, todos sem complicação… (medo!!! Rsrsrs)

O que é um risco aceitável para uns, pode ser absolutamente inaceitável para outros. O tratamento médico deve incluir as expectativas do paciente para que além de um bom resultado, ocorra satisfação com o tratamento. Sem uma aproximação entre o médico e o paciente, é impossível fazer os ajustes necessários para um tratamento customizado.

Competência técnica versus competência humana

Todos querem receber o diagnóstico correto e isso não acontece se o médico não tiver um bom conhecimento técnico. Para os casos mais raros e difíceis, precisamos de médicos muito competentes no conhecimento científico e que se debruçam sobre os livros para aprender tudo que é possível.

Os colegas mais estudiosos e dedicados que conheço prefeririam sem pestanejar um médico grosso e competente do que um médico cuidadoso e amável, porém sem um histórico acadêmico de primeira.

O protótipo do médico bom (de conhecimento) e ruim (no trato com as pessoas) é representado por Hugh Laurie na série de TV Dr. House. Ele maltrata os pacientes e colegas de trabalho, desrespeita as pessoas, mas no final sempre acerta o diagnóstico e salva a vida.

Na vida real as coisas são diferentes. A maioria dos diagnósticos não são tão difíceis e os tratamentos, em geral, são padronizados. Uma vez feito o diagnóstico, o que o paciente precisa é de alguém que sabia conduzir o tratamento e amenizar o sofrimento, coisa que os Houses da vida são incapazes.

Conheci muitos médicos rudes que fizeram fama por sua competência técnica. Ao longo dos meus quase 30 anos de profissão, testemunhei o declínio de prestígio desses profissionais. Hoje em dia, o paciente quer ser bem tratado em todos os sentidos e merece sê-lo.

No mundo inteiro profissionais de saúde reagiram à tendência de os pacientes avaliarem os médicos e terem essas avaliações disponíveis online. Os médicos não querem ser tratados como motoristas de Uber, dizem. O que não explicam é porque seu serviço é tão diferente dos outros em que o contratante tem direito de avaliar a qualidade do atendimento prestado. Tenho certeza que se puder optar entre um médico competente e rude ou um médico competente e amável, os pacientes preferirão o último.

12 Motivos para Demitir Seu Médico

O site US News publicou 12 razões para demitir um médico na sua seção de Saúde. Veja abaixo o resumo.

  1. Você e seu médico não se conectam e não tem um bom vínculo
  2. Seu médico não respeita os horários e lhe deixa esperando uma eternidade
  3. O médico não lhe esclarece sobre seu problema e o plano de tratamento
  4. Seu médico não lhe escuta e não está aberto para entender sua visão
  5. Os atendentes da clínica não são gentis e são pouco profissionais
  6. Você não se sente confortável para expor questões íntimas com seu médico
  7. Seu médico é incapaz de se coordenar com outros especialistas que cuidam de você
  8. Você nunca consegue contato com seu médico
  9. Seu médico é rude e lhe trata de cima para baixo
  10. Seu médico não se atualiza constantemente
  11. Há muitas opiniões negativas sobre seu médico
  12. O ambiente da clínica é desagradável ou sujo

A medicina é também um serviço e a satisfação do cliente faz parte das metas a serem buscadas. Cada vez mais a experiência do consumidor é tomada como indicador de qualidade na gestão hospitalar. É só uma questão de tempo para que se torne crucial para o sucesso de cada médico.

O que não é aceitável é que uma pessoa incompetente, antiética ou desonesta alcance sucesso simplesmente porque utiliza de recursos de simpatia ou de mídia para alavancar seu trabalho. Quem faz isso é mau profissional e não deveria levar vantagem. Alguns até incorrem em charlatanismo prometendo resultados inalcançáveis. Para esses casos, deveríamos ter uma atuação mais direta e punitiva dos conselhos regionais de medicina.

A relação médico-paciente é um serviço porque subentende uma remuneração pelo atendimento profissional prestado. A competência técnica é fundamental, mas a competência no contato humano é igualmente importante. Quando o médico não se esforça por compreender as necessidades do paciente com pessoa total, todos perdem. Perde o paciente que fica insatisfeito com o tratamento. Perde o médico porque vai receber menos indicações de clientes. E perde mais uma vez o médico que deixou de aproveitar as possibilidades de amadurecimento que estar aberto para o outro podem representar.

O doente cura o médico

Uma das formas de se enxergar uma pessoa é pelos relacionamentos que ela tem com os outros. É como se os relacionamentos fossem os fios de uma rede e cada pessoa é um nó dessa rede, composto pelo entrelaçamento dos fios. Cada um de nós se realiza como pessoa graças à nossa inserção na comunidade.

A ideia de conhecimento como rede é bastante difundida e aceita no meio acadêmico. Embora cada um de nós seja um indivíduo – indivisível e único – somos dependentes dos outros. Cada um de nós é um agente intencional, temos liberdade de escolha. Entretanto, somos constituídos pela sociedade que nos ensina a linguagem, os valores e a cultura. Estamos o tempo todo aprendendo e nos transformando porque vivemos nos relacionado com os demais.

Se o contato entre médico e paciente (bem como familiares) é um tipo de relacionamento e os relacionamentos constituem as pessoas, então cada paciente transforma um pouco a vida do médico. Existe uma fonte riquíssima de aprendizado e crescimento para o médico se ele ouve os pacientes com atenção e cuidado.

Apesar de estar numa situação de serviço profissional, existem outras dimensões concomitantes ao ato da consulta médica. Quando médico e paciente estão abertos, acontece uma dimensão de dádiva. Nela o médico doa mais do que o conhecimento técnico, oferecendo sua empatia, sua compaixão e um pouco de si para cada paciente. Por outro lado, os pacientes retribuem ao médico contando suas experiências de vida, seus acertos e erros, sua sabedoria e valores. Essa é uma oportunidade singular de aprendizado para ambos.

Cuidar com o coração torna o médico mais feliz

Muito se fala atualmente de burnout (esgotamento) e os médicos estão em uma das profissões mais acometidas. As causas são a sobrecarga de trabalho, a rotina, a poucas horas de descanso e questões pessoais. O médico que é feliz e satisfeito com seu trabalho tem menos depressão, ansiedade ou burnout.

Para ser feliz na profissão é necessário gostar do que se faz. Todavia, ninguém gosta de trabalhar como uma máquina, atendendo de forma mecânica enquanto espera o relógio apitar o fim do expediente. A noite não é suficiente para descansar do dia e o sábado e domingo não compensam o desgosto da semana.

Quando envolvemos o coração e ouvimos as pessoas que nos procuram com um desejo sincero de aliviar seu sofrimento, o cenário se transforma. Ainda que atenda dez pessoas com a mesma doença em um dia, nenhum caso será igual pois as pessoas são únicas. A rotina desaparece.

Se somos capazes de nos entregar em dádiva, a medicina ganha um significado mais elevado e nossa vida se enche de propósito. Esse é um dos grandes segredos da felicidade. Trabalhando dessa forma, o tempo não passa e a sensação de flow é cotidiana.

Como mudar a prática do consultório

Enquanto alguns leem esse texto com espanto, discordando de tudo aqui falado, outros pensam que adorariam ter a oportunidade de praticar uma medicina humanizada, mas não enxergam essa possibilidade.

A mudança é factível e começa pela disposição interna de fazer diferente. O início está no interesse genuíno que expressamos ao perguntar “como o senhor se sente?”. Essa simples pergunta com o sentimento interno correto gera repercussões como o efeito borboleta.

Para cada paciente que atendemos como se fossem da nossa família, virá mais dois ou três que receberão a indicação. Mas não vale tratar bem só para conquistar mais pacientes. É preciso ter retidão de propósito e cuidar porque é isso que você escolheu fazer.

Seis graus de separação nos conectam com qualquer outro ser humano. Dentro daquela rede em que cada um é um nó, qualquer pessoa está ligada a mim pela distância máxima de seis nós. Pensando nisso, podemos mudar nossa forma de agir com os outros. Afinal, somos todos familiares!

Podemos defender a premissa da ética kantiana de que uma pessoa não é um meio; uma pessoa é sempre um fim. Pouco importa que a maior parte do mundo coloque os valores materiais acima de tudo. Se a corrente nos puxa para baixo, remaremos para cima. Um ato de protagonismo seu pode mudar toda a rede à sua volta.

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