Canabis na neurologia

Ontem assisti a um curso sobre uso terapêutico da maconha no congresso da Academia Americana de Neurologia na Filadélfia. Vou compartilhar o que consegui apreender.

Existe uma grande pressão da sociedade leiga para a liberação dos produtos da maconha, seja para uso recreativo ou para uso terapêutico.

Por outro lado, existe uma resistência de parte da sociedade leiga por considerar a maconha uma droga psicoativa com potencial alto de dependência química e ainda uma resistência da comunidade científica porque a maioria dos estudos realizados até o momento carecem de metodologia científica rigorosa.

Começando por algumas definições, vou falar da maconha como tradução de “marijuana”. Essa forma de Canabis tem poder psicotrópico e contém quantidades variáveis de 9-Tetrahidrocanabinol (THC), o que causa os efeitos psicoativos buscados para o consumo recreativo. Em contrapartida, o cânhamo, tradução de hemp em inglês, contém menos de 0,3% de THC e não causa o “barato” da maconha.

Todavia, marijuana e hemp são basicamente a mesma planta denominada Canabis, com a diferença da quantidade de THC. A distinção entre os dois é difícil. Apesar disso, a maconha (marijuana) é ilegal nos EUA, já o cânhamo (hemp) é legal.

A droga vendida como maconha atualmente tem uma concentração muito mais alta de THC do que há décadas. Isso porque os cartéis de droga tem feito cruzamento de plantas e separação de machos e fêmeas para obter mais efeito com menos quantidade de maconha, aumentando a potência da droga e diminuindo os custos com logística. A maconha de hoje tem 20 vezes ou mais THC do que há 3 décadas atrás.

Também a distinção entre as subespécies sativa e indica não tem mais razão de ser. As hibridizações entre elas são a regra. Quando se usa o termo indica atualmente é só indicar o efeito calmante de uma cepa particular da planta.

Em 1970 o governo americano classificou a maconha como uma droga de nível 1 (schedule 1). Isso significa que a lei classifica a maconha com o mesmo grau de perigo que a heroína. A cocaina, por sua vez, é schedule 2.

Obter autorização para pesquisa científica para uma droga de nível 1 é dificílimo. Raros centros conseguem preencher os critérios. Por essa razão, os estudos prospectivos, duplo-cego e controlados com Canabis nos EUA são quase inexistentes.

Essa posição em relação à droga atrapalha o desenvolvimento de pesquisa de alta relevância, que é o que a comunidade científica espera pra poder prescrever como tratamento. Uma exceção é feita ao canabidiol que tem liberação para estudos e uso em todo o país, pois é considerado uma substância livre de efeitos psicoativos. O nome comercial do CBD purificado, usado para tratamento de epilepsia, é Epidiolex.

Outro motivo de resistência é que a maconha tem mais de 1200 substâncias potencialmente ativas, além dos canabinoides, há terpenoides e outras classes químicas que podem ou não contribuir para os efeitos benéficos, bem como para os efeitos adversos.

A tradição da farmacologia como ciência médica é de procurar substâncias isoladas, com efeitos muito específicos direcionados aos alvos orgânicos que queremos atingir. Por exemplo, se alguém tem uma aceleração do coração, usamos um medicamento que atue apenas no controle da frequência cardíaca, como alguns betabloqueadores. Quanto mais específico, melhor.

Em contraste com os medicamentos tradicionais, o usuário de maconha ou cânhamo terapêuticos se expõe aos efeitos de centenas de substâncias e é impossível saber quais causaram mudanças orgânicas.

Além disso, o THC e o CBD, compostos químicos com afinidade pelo sistema endocanabinoide, também tem diversos outros efeitos, como propriedades antioxidantes, imunoreguladoras e metabólicas. Não sabemos até o momento se esses são efeitos diretos das substâncias que atuam em vários mecanismos celulares ou indiretos pela ativação dos receptores endocanabinoides que regulam diversas funções.

A propósito, o sistema endocanabinoide é um sistema fisiológico até recentemente desconhecido. Ele é o responsável pelos principais efeitos da maconha. Analogamente ao sistema opióide, o sistema endocanabinoide recebeu esse nome a partir da descoberta de como a Canabis funciona no corpo.

Essa nomenclatura pode gerar uma certa confusão porque passa a impressão que somente a maconha pode ser usada com tratamento. No caso dos opioides, ninguém prescreve fumar ópio como medida terapêutica. Mas utilizamos diversos produtos muito específicos como a morfina, a oxicodona, a codeína, o fentanil, alfentanil remifentanil etc que atuam especificamente nos receptores “opióides”. O caminho em relação aos endocanabinóides deve ser semelhante.

Caso o sistema canabinóide tivesse sido descoberto por outros meios; seu nome seria diferente e pensaríamos da mesma maneira que vemos a serotonina, a acetilcolina ou o glutamato que são neurotransmissores sem associação com um produto exógeno.

Contudo, entre os defensores da liberação da maconha como produto terapêutico, facilmente notamos que existem aqueles que gostam da planta como um todo e seus aspectos culturais, sociais, psicodélicos e quetais.

De um lado, essas pessoas lutam positivamente para a liberação da maconha, mas podemos fazer um desserviço ao tentar impor um tratamento sem que o mesmo tenha passado pelas etapas naturais do método científico. Vimos a decepção que isso pode causar no caso da liberação antecipada da fentanolamina.

Quais seriam as etapas normais?

Identifica-se o efeito biológico da planta e o local de sua ação no sistema nervoso central. No caso, já estão identificados os receptores endocanabinóides como o CB1 e o CB2.

Por fim, desenvolvem-se substâncias que tenham o máximo de especificidade na ativação ou no bloqueio desses receptores. Em geral, elas são pouco relacionadas ao produto original de pesquisa.

Um exemplo é o caso dos inibidores da receptação da serotonina. Medicamentos como a fluoxetina, paroxetina ou sertralina tem ação específica no cérebro e com eles podemos esperar efeitos terapêuticos e adversos em função da dose administrada, com a possibilidade de aumentar ou diminuir a mesma conforme a necessidade.

No estágio atual do desenvolvimento terapêutico da maconha, é impossível prescrever seu consumo em termos farmacológicos. Não sabemos o que o paciente vai usar, nem como titular as doses.

A maconha tem sido consumida na forma fumada, com vaporizadores (vapes), por via transdérmica e por via comestível. Cada qual tem propriedades farmacocinéticas distintas, o que tem sido um problema no ajuste de dose no caso de crianças ou de incapazes com dificuldade de relatar o que sentem.

Imaginem administrar algo vendido como “óleo de canabidiol” para uma criança autista que não consiga descrever que está tendo sintomas paranóides pelo remedio…

Devemos reconhecer, entretanto, que a maconha e o cânhamo tem potencial terapêutico para varias doenças. Fibromialgia, cólon irritável, autismo, alterações de comportamento, síndrome miofasciais, distúrbios do apetite, do ritmo circadiano e dores crônicas são alguns dos exemplos de possível aplicação clínica de derivados canabinoides.

É preciso mais pesquisa e seria ótimo dissociar o estudo do sistema endocanabinoide do consumo recreativo da maconha.

Penso que seria muito bom liberar o consumo recreativo, colocando a marijuana no mesmo patamar do álcool e permitindo seu livre consumo para maiores de 18 anos.

Tal medida seria um golpe sobre os cartéis de droga. Geraria recursos para a sociedade por meio de impostos e, principalmente, permitiria o desenvolvimento de boas pesquisas na área.

Seria possível saber se o consumo recreativo aumenta realmente o risco de desemprego, como há pesquisas que indicam. Também seria mais fácil fazer experimentos com animais e com humanos, para avaliar a Canabis e seus derivados.

Também cabe lembrar que nos EUA os usuários de maconha medicinal são proibidos de dirigir comercialmente, de dirigir caminhões ou ônibus e não podem ter armas de fogo em casa. Sendo liberado o consumo no Brasil, deve-se pensar no controle para o uso responsável.

Se minhas suspeitas estiverem certas, no momento que liberarem, grande parte dos defensores do uso medicinal abandonariam a causa porque na verdade seu alvo é o consumo recreativo. Há pessoas nos EUA que usam maconha para controle de glaucoma, apesar de haver colirios e cirurgias mais eficazes para o problema. Por que será?

Também acredito que novas substâncias deveriam ser desenvolvidas para atuar específica e exclusivamente nos receptores canabinoides. Aí veríamos o verdadeiro uso terapêutico da Canabis, ainda que os medicamentos tenham pouco ou nada a ver com a planta que tanto inspirou Bob Marley, Bob Dylan e outros tantos Bobs.

Roger Soares

Neurologista

Sending
User Review
0 (0 votes)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *