Medicina e sacerdócio: Aprender mais para servir melhor

O conhecimento médico está em constante renovação

O médico precisa estudar a vida inteira, o tempo todo. A saga do conhecimento se inicia antes de entrar na faculdade, na preparação para um disputado vestibular. Depois se estende por toda a carreira profissional pois a ciência médica transforma-se continuamente. O conhecimento de ponta hoje será superado e substituído por um mais avançado em menos de 5 anos. Livros médicos envelhecem de modo acelerado e se tornam obsoletos num piscar de olhos.

Mas não é apenas para se manter atualizado que o médico estuda.

O conhecimento é uma ferramenta para agir no mundo

O conhecimento médico é fascinante. Já na conversa o paciente pode perceber quando o médico o compreende. O profissional experiente ouve atentamente a história da pessoa. Ele sabe fazer as perguntas pertinentes, de acordo com as hipóteses que formula mentalmente. Ter esse domínio sobre assuntos e ser capaz de utilizar o conhecimento para mudar a vida das pessoas representa uma grande responsabilidade.

Além da história, ainda na consulta é possível ver o conhecimento transformando-se em ação. Ao examinar o paciente, o médico testa suas suspeitas e muitas vezes decifra o enigma. Com frequência o profissional encontra pontos dolorosos ou sinais que o paciente não tinha percebido.

O médico jovem tem sede de conhecimento

Lembro que no início dos estudos na faculdade de medicina, o universo da ciência se abria em infindáveis possibilidades. Estudar anatomia, fisiologia, patologia e penetrar nos intricados mecanismos moleculares e celulares que sustentam a vida era apaixonante. O estudante de medicina e o médico em formação têm uma avidez de conhecimento, uma fome de saber dos mistérios que o corpo humano oculta.

A busca pela excelência na clínica

Depois da residência médica, ao menos no meu caso, a busca do conhecimento era motivada pelo desejo de excelência. Queria estar na ponta, na vanguarda, no limite entre o conhecimento estabelecido e a área de produção de novas descobertas. Era como se eu pudesse ler hoje o jornal de amanhã. Isso porque na ciência avançada, as pesquisas levam anos para se traduzirem em medicamentos ou tecnologias práticos.

Consolidando o conhecimento útil na prática

Durante o período de amadurecimento, observei que precisava cultivar o conhecimento que impactaria diretamente no cuidado dos pacientes no consultório. Os avanços da ciência molecular ou genética que não podiam ser utilizados imediatamente deveriam ceder espaço para as coisas mais práticas. A finalidade seria de dar uma assistência ao nível de “estado da arte” no diagnóstico e terapêutica, em consonância com as melhores práticas internacionais de cuidado.

A arte médica madura busca o tratamento individualizado

Atualmente, já com a maturidade de quem não se encanta mais apenas pela intelectualidade, a preocupação vai além do conhecimento que continua atualizado pelo estudo diário. Interessa-me saber como o conhecimento científico embasado em sólidos ensaios clínicos pode ser traduzido para a realidade pessoal de cada paciente, levando em conta a história de vida de cada um e o contexto em que a doença se apresenta. Esse processo translacional visa humanizar e individualizar os tratamentos disponíveis, para que o paciente não se sinta perdido ou esquecido pelo médico. Buscamos tratar o doente como um ser integral.

Na medicina exercemos um sacerdócio

Acredito que muitos colegas passaram por essas fases no relacionamento com a ciência médica. No início o conhecimento é prazer pelo conhecimento, é a excitação intelectual. Depois ele vai se conformando às necessidades da vida prática e também ao processo de competição por um espaço no mercado. Por fim, se caminhamos de forma honesta e verdadeira, a experiência de vida se soma para enxergarmos além das doenças e dos órgãos e sermos capazes de contemplar a pessoa e seu adoecimento. Nesse ponto, o que desejo é aprender mais para servir melhor.

Roger Taussig Soares
Neurologista SP
crm 69239

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