Segurança Cardiovascular no Tratamento de TDAH

Os tratamentos mais eficazes para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade baseiam-se no uso de medicamentos estimulantes do sistema nervoso central. Comercialmente disponíveis no Brasil, representam essa classe de drogas o Metilfenidato (Ritalina e Concerta) e a Lixdexamfetamina (Venvanse). Como essas medicações aumentam a atividade de neurotransmissores cerebrais como a dopamina e a noradrenalina, existe a preocupação que seu uso possa gerar consequencias negativas para o sistema cardiovascular e para a circulação cerebral, predispondo os usuários a infarto do miocárdio, arritmia cardíaca ou acidente vascular cerebral.

Sabe-se já há algum tempo que o uso dos estimulantes para o tratamento de TDAH está associado a um aumento da pressão arterial (de até 5 mmHg) e a um aumento da frequência cardíaca (até 7 batimentos por minuto). A pergunta é se esse aumento de pressão e frequência cardíaca poderíam ocasionar um maior risco de morte súbita, arritmia ventricular e AVCs. Para avaliar essa possibilidade, foi realizado um estudo publicado no American Journal of Psychiatry em fevereiro de 2012 que analisou os riscos cardiovasculares e cerebrais em 43.999 pacientes adultos em uso de metilfenidato por no mínimo 180 dias no período de 1999-2006. Esses dados foram comparados com 175.955 pessoas que não usavam a medicação.

A análise dos dados revelou que os pacientes que aqueles que tomaram metilfenidato tiveram uma chance de ter uma arritmia ventricular ou morte súbita de 2,17 por 1000 pessoas-ano, enquanto que nos que não tomavam o risco foi de 0,98 por 1000 pessoas-ano o que gerou um taxa de risco (hazard ratio) em análise de sobrevida de 1,84. O aumento de chance foi observado apenas em arritmia ventricular/morte súbita e não foi identificado maior risco de morte em geral, acidente vascular cerebral ou infarto do miocárdio nos utilizadores de metilfenidato nesse estudo.

Curiosamente, não se observou uma relação entre a dose de metilfenidato e o risco de arritmia ventriculares. De fato, apenas o grupo que fazia uso de 20mg por dia tiveram o risco aumentado para os referidos problemas cardíacos. Nem aqueles que tomaram doses maiores, nem os que tomaram doses menores que a citada apresentaram esse efeito. Essa observação levou os pesquisadores a questionarem esse achado e talvez o aumento notado no risco de arritmia ventricular não se devesse diretamente ao uso do metilfenidato.

Uma das hipóteses levantadas foi a de que os indíviduos que receberam a dose mais baixa de metilfenidato (20mg/dia) pudessem já ter outras condições clínicas que os tornavam mais suscetíveis a problemas cardíacos e por isso já haviam recebido doses mais baixas da medicação. Fatores como a idade, a fragilidade física ou outros não detectados no estudo poderiam confundir a análise e gerar o efeito observado.

Outro estudo publicado no Journal of the American Medical Association em dezembro de 2011 com pacientes de até 65 anos não identificou maior risco de eventos cardiovasculares ou AVC em pacientes que utilizaram medicamentos para Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Nos Estados Unidos, cerca de 1.500.000 adultos recebem tratamento com estimulantes do sistema nervoso central para tratamento de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. No Brasil, o diagnóstico de TDAH tem aumentado provavelmente devido a maior conhecimento do problema e educação crescente da população. Considerando que o tratamento dessa condição pode melhorar significativamente a vida acadêmica e profissional dos indivíduos afetados, é preciso ter profissionais bem treinados e atualizados para a utilização correta dos medicamentos disponíveis de modo a obter o melhor benefício e minimizar os riscos para os pacientes.

 

© Roger Taussig Soares – Direitos Autorais Reservados

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