Aprofundando as raízes

by Roger Soares

Sou paranaense mas confesso minha paixão por Minas Gerais. Ela surgiu ainda na adolescência ao ouvir as primeiras canções festejando aquela terra maravilhosa. Sem ser um filho desnaturado da terra das araucárias, devo confessar que também me encantam o Rio Grande do Sul, o Nordeste e Norte do Brasil. O que me fascina nesses lugares é a densidade das culturas locais, os costumes arraigados nas tradições folclóricas.

A peculiaridade da cozinha, o jeito de falar, as roupas e ademais apontam para hábitos que se sustentam no tempo por terem raízes profundas. Já em certos outros estados mais cosmopolitas e, atualmente, mais globalizados, sente-se a carência de identidade cultural, por mais que vivamos em um pólo de manifestações artística como São Paulo.

Uma vez estava na praia de Boa Viagem em Recife e, percebendo a riqueza daquele mundo, resolvi sair do círculo de segurança simbólica da cultura de hotel e penetrar nos escaninhos da vida do povo. Fui parar em um botequim tipo meia-água, com paredes azulejadas e suadas, numa esquina até insuspeita convivendo com a imponência dos edifícios chiques dos arredores. Sem recomendações prévias tipo "lugares imperdíveis de Vejinha", arrisquei sem medo no sarapatel com muita pimenta e farinha, acompanhado de uma boa talagada de cana de cabeça no balcão. Não sei se o álcool garantiu a assepsia, mas o fato é que não senti nada mais que um prazer indescritível de, por alguns momentos, fazer parte daquela alma situada no tempo-espaço presente.

Esse exemplo, assim como a sensação de realização que me envolve toda vez que vou parar em Conceição do Ibitipoca - MG nas minhas férias anuais, são suficientes para demonstrar o que quero expor: as coisas são mais verdadeiras quando têm raízes.

Esse é o ponto crucial! Faz muita diferença entre ouvir uma moda de viola em um restaurante com decoração típica em São Paulo, e ouvir a mesma moda, tocada talvez até com menos habilidade, ao pé de um fogão de lenha olhando o sol se pôr entre as colinas verdejantes das Minas Geraes.

Na minha visão, não é possível recriar certas manifestações culturais sem estar envolvido no contexto do seu estado natural de nascimento. Não é possível entender uma determinada forma de expressão sem ter crescido no mesmo solo onde aquela assenta suas raízes. Para além disso, o que existe é sempre um olhar desde fora, uma imitação ou emulação cultural (nas palavras de Michael Tomasello) que nem sempre consegue tocar na essência da coisa replicada e corre o risco de parecer uma mera caricatura ou um verdadeiro simulacro.

Vivendo nas metrópoles estamos expostos a uma variedade de manifestações culturais que nos dão a sensação de domínio e universalidade. Mas não podemos nos enganar. Olhando mais de perto, notamos que estão muitas vezes pasteurizadas porque, deslocadas de seu contexto de origem, vêm-se mostrar nas formas, destituídas do seu núcleo significativo. Assistir aos balés mecânicos de tango para estrangeiros em Buenos Aires não nos faz sentir a alma portenha.

Reconhecer que a cultura e sua prole são situadas no tempo e no espaço é fundamental para compreendermos a principal consequência disso: os outros são imprescindíveis na sua maneira peculiar de ser e viver. Não é possível se apropriar da cultura alheia e supor que o outro é descartável depois disso. Não há como realmente tomar posse da cultura, a não ser que tenhamos a vivência imediata dela no seu próprio lugar e pelo tempo necessário.

Isso não quer dizer que a comunicação de valores entre culturas diferentes seja impossível. Se assim fosse, estaríamos irremediavelmente condenados ao solipsismo regionalista. Ao contrário, há coisas que nos unem em termos universais porque são princípios de humanidade e nos permitem ouvir, enxergar e compartilhar nosso ponto de vista e nossas intenções com os outros.

O que deve ficar claro é que não basta utilizar os ícones das culturas locais para se proclamar senhor delas. Não basta usar "alpercatas". Para dançar um bom baião tem que ter uma alma nordestina.

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