Humanos Transgênicos: estamos preparados?

Pensar em humanos transgênicos na atualidade parece coisa de cinema. Todavia, as pesquisas científicas e novos tratamentos genéticos apontam para que em futuro não muito distante tenhamos pessoas transgênicas. Provavelmente esses desenvolvimentos tecnológicos não passarão pelo escrutínio dos conselhos de ética institucionais ou da população leiga e serão implementados gradualmente como avanços da ciência. Na prática, muitas coisas já estão acontecendo e suas implicações deveriam causar reflexões em diversos setores da sociedade.

 

Quando a ovelha Dolly foi criada e a técnica descrita houve uma grande comoção mundial diante da perspectiva de clonagem de seres humanos. As pesquisas em clonagem humana foram proibidas na maioria dos países e alguns poucos deram andamento a experimentos isolados, mas não há notícias recentes sobre essas iniciativas. Isso significa que não esteja acontecendo? Não temos como afirmar isso. O fato é que na medicina veterinária a técnica se encontra bastante aprimorada e vem sendo utilizada rotineiramente, bem como o fracionamento de embriões.

Os alimentos transgênicos também sofreram grande quantidade de crítica dos defensores de uma vida mais natural, entretanto grande parte dos alimentos consumidos no mundo sofreram algum tipo de manipulação genética, seja por selecionamento de espécies (aproveitando as mutações espontâneas) ou por intervenções diretas no material cromossômico. Depois de uma certa polêmica, a maioria de nós se acomodou e raros se empenham em consumir exclusivamente alimentos orgânicos.

No campo dos tratamentos de infertilidade humana, várias técnicas são utilizadas pelas clínicas de reprodução para propiciar a gestação em casais que não teriam filhos próprios sem o auxílio da medicina. Hormônios são aplicados para estimular a produção de óvulos que são coletados e fertilizados in vitro, para então se implantar alguns no útero preparado que dará à luz uma ou mais crianças. Em alguns casos embriões são congelados e guardados para utilização futura, permitindo que uma jovem que será submetida a uma quimioterapia seja capaz de conceber posteriormente. Há quem diga que uma vez que o embrião é produto da concepção e um ser humano em potencial, seu descarte seria uma forma de abortamento, mas isso é outra estória. O importante é notar que depois do debate, ao final é o mercado que determina o que será ou não utilizado na prática e aquilo que era desaprovado, torna-se celebrado por seus usuários.

Aprodundando ainda mais, é interessante notar que durante a fase de fertilização fora do útero, é possível fazer uma seleção de embriões, com base em especificações genéticas, excluindo aqueles que carregam um gene indesejável. Um casal de pacientes meus tiveram dois filhos por esse método e estão super-felizes. O pai tem anemia falciforme e a mãe tem talassemia, as duas doenças são genéticas e teriam boa chance de ser transmitidas aos filhos comprometendo sua qualidade de vida e talvez até sua sobrevivência. Com o selecionamento de embriões, nasceram duas crianças sem as doenças dos pais. Não podemos dizer que são crianças transgênicas porque não houve manipulação do DNA, mas apenas uma detecção de quais embriões eram livres dos defeitos genéticos dos pais. Todavia, se fosse possível modificar um gene sabidamente defeituoso para garantir a possibilidade de uma vida mais longa e saudável para seu filho, não seria uma técnica válida? É bem provável que quando essa técnica se tornar disponível, ela será utilizada e comemorada. Será o início dos humanos transgênicos, porém diferentes dos X-Men que surgiam de mutações espontâneas, segundo as estórias em quadrinhos.

Há décadas se investe em pesquisas para desenvolver tratamentos genéticos que modifiquem o material hereditário, seja em células germinativas ou em células somáticas. A terapia de células germinativas visa alterar o material cromossômico antes do desenvolvimento do embrião. Lembro-me que o Dr. Roger Rosenberg profetizava na década de 1980 que a primeira doença a ser tratada com essa tecnologia seria a Síndrome de Lesch-Nyhan, ocasionada pela mutação da enzima HGPRT, mas até o momento não se concretizou. Por outro lado a térapia genética de célular somática tem como alvo as células do corpo formado e visa modificar o DNA em pessoas que já estão doentes, ou seja, o tratamento de células somáticas não é preventivo, mas sim voltado ao controle dos sintomas. Várias estratégias têm sido utilizadas para modificar os genes, sendo a mais frequente a que envolve a utilização de um vírus vetor que carrega o material genético para dentro das células-alvo. Os primeiros resultados positivos em animais já indicam que o uso clínico é iminente.

Mais recentemente, um novo tipo de terapia genética tem sido desenvolvido e já apresenta bons resultados. A terapia anti-senso utiliza pequenos pedaços de RNA para modificar a função de genes defeituosos existentes no indivíduo nascido com certas doenças. Até o momento já existem 4 doenças que podem ser tratadas com terapia genética anti-senso: um tipo de retinite, uma forma de alteração de colesterol familiar, a atrofia muscular de Duchenne e a atrofia muscular espinhal.

O tratamento da Atrofia Muscular Espinhal pode ser feito com uma droga denomina Spinraza, aprovada pelo FDA, órgão americano de controle de medicamentos. É fantástico pensar que uma criança que teria menos de 2 anos de sobrevida poderá ser curada com um tratamento genético. A expectativa é que outras doenças genéticas possam ser tratadas com medicamentos de atuação semelhante.

Esses avanços tecnológicos são empolgantes, mas têm um alto custo. O tratamento com Spinraza custa 1 milhão de dólares por paciente ao longo de um ano. Se considerarmos que a Atrofia Espinhal Muscular (AEM) é a segunda doença genética recessiva mais frequente, perdendo apenas para a fibrose cística, podemos antecipar que a universalização desse tipo de tratamento será insustentável economicamente. Um agravante é que uma em cada 50 pessoas são portadoras da alteração genética relacionada à AEM e pode gerar um filho com a doença se encontrar um parceiro com a mesma carga genética.

Se todos têm direito à saúde e a sociedade deve arcar com os custos desses tratamentos, podemos imaginar a quantidade de pessoas exigindo acesso aos tratamentos genéticos do mesmo modo que pessoas com câncer ou doenças imunológicas fazem para conseguir por via judicial seus medicamentos que também são bem caros, mas incomparavelmente mais baratos que os tratamentos genéticos.

Em termos econômicos, é muito mais vantajoso evitar que as crianças nasçam com doenças genéticas que serão evitáveis por meio da tecnologia. Seja por selecionamento de embrião ou por modificação do genoma de células germinativas, o custo é infinitamente menor para prevenir do que para remediar. Além disso, quem não quer que seu filho venha forte e saudável ao mundo? Considerando que um mapeamento genético de um adulto custa hoje cerca de dez mil reais no Brasil e nos EUA está disponível em websites por 1500 dólares ou menos, saber quais são os genes que cada um leva e que pode transmitir à sua progênie é cada vez mais simples e barato. O próximo passo é avaliar se existe algo de potencialmente grave a ser prevenido no caso de uma gestação. Logo os médicos obstetras planejarão as gestações com base no mapa genético dos casais e cada um poderá escolher se jogará dados ou se decidirá como seu filho nascerá.

Evidentemente há muitas questões de ordem ética que precisam ser visitadas e discutidas pela sociedade. Todavia, não podemos pensar de maneira retrógrada porque a ciência continuará avançando, independente da autorização popular. Na verdade, é bem provável que a clonagem de seres humanos não avançou somente porque não tem atrativos suficientes, já que outras áres antes consideradas tabu, como as células-tronco, já foram integradas na prática médica corriqueira. Enquanto a sociedade organizada faz grandes movimentos para bloquear os avanços tecnológicos, de outro lado eles são introduzidos em doses homeopáticas e todos os festejam quando se tornam efetivos. Isso acontece quando se fala do celular mais novo com reconhecimento de face ou com os avanços tecnológicos que impactam a medicina e a vida.

Compreendendo que por razões econômicas, afetivas e humanitárias, as técnicas de prevenção de doenças hereditárias devem avançar muito nos próximos anos, a prevenção de doenças hereditárias deve se tornar rotina brevemente. Depois disso, logo chegaremos na questão última dos seres humanos melhorados por meios transgênicos. A lógica do melhoramento já vem sendo aplicada em pesquisa numa área denominada "medicina de melhoramento" (enhancement medicine) dedicada ao desenvolvimento de próteses que permitam não apenas a recuperação da função perdida, como o ganho de algo além do normal. Desenvolvidos para pessoas cadeirantes ou mutilados, a idéia é questionar porque não buscar próteses que sejam mais efetivas que a fisiologia normal. Basta lembrar de Oscar Pistorius que chegou a disputar as olimpíadas com próteses em ambas as pernas. Quando as técnicas de manipulação genética de embriões forem dominadas, porque não buscar favorecer o nascimento de pessoas mais bem dotadas em termos intelectuais, afetivos, sociais etc?

Essas questões ainda são polêmicas e precisam ser discutidas. Ainda que não tenhamos o poder de barrer as revoluções tecnológicas, ao menos podemos refletir em profundidade e consumir de modo mais consciente. No limite da ciência, os fatos são de difícil acesso ao público leigo e cabe aos profissionais que lidam com pessoas fazer a tradução do conhecimento técnico até o ponto em que ele seja absorvido, discutido e referendado pelo senso comum.

 

Roger T. Soares
Neurologista
CRM: 69239 SP
Tel: 11-3266-7024/2476-0346

Deixar seu comentário

Postar comentário

0

Comentários

Back to top