Dor e Sofrimento - companheiros inseparáveis?

Todos já experimentamos o sofrimento em nossas vidas e carregamos a certeza de que esse sentimento se manifestará novamente em algum momento. Os budistas dizem que a existência física é inevitavelmente atrelada ao sofrimento. Ele está presente no nascimento, no envelhecimento, na doença, no afastamento daqueles que amamos, na proximidade com aquilo que nos desagrada e, finalmente, na morte.

A medicina atual parece mais preocupada em tratar as doenças do que o mal-estar associado a elas.  Ainda que esse pareça ser o foco da prática médica, na realidade, o que buscamos é amenizar o desconforto; muitas vezes isso é tudo o que podemos fazer. Refletir sobre a existência e as causas do sofrimento, bem como os caminhos que levam à sua extinção deve ser uma das preocupações dos que se dedicam ao serviço da saúde.

Habitualmente relacionamos o sofrimento à dor. Quanto maior a dor, maior o sofrimento. A dor pode ser física, como a de uma fratura óssea ou moral, como a de uma separação conjugal não-desejada. Todavia, podemos perceber que a relação entre dor e sofrimento não é fixa em termos de proporções.

É fácil observar situações em que o sofrimento é muito maior que o esperado para a gravidade da dor. Muitas vezes as crianças manifestam grande sofrimento diante de pequenas contrariedades ou, inversamente, pouquíssima preocupação diante de coisas que adultos consideram insuportáveis. Outras vezes, ouvimos falar de pessoas que passaram por grandes provações, como um tratamento de câncer e que não se abalaram tanto quanto seria esperado. Diríamos que tiveram menos sofrimento em relação ao tamanho da dor real que experimentaram.

O sofrimento, portanto, é uma experiência subjetiva diante da dor ou de sua possibilidade. Claro que essa é uma definição simplista, com um caráter operacional. A partir dela, todavia, podemos encontrar a felicidade como um oposto, uma imagem especular do sofrimento. A felicidade também é caracterizada como uma experiência subjetiva, só que de bem-estar físico, psicológico e social.

Dizem os filósofos que além da experiência subjetiva, também a crença ou pensamento que leva à sensação de felicidade deve ser verdadeira. Por esse pensamento não se pode considerar felicidade verdadeira aquela decorrente do uso de uma droga alucinógena, por exemplo. Aplicando o mesmo raciocínio de volta à questão do sofrimento, somos levados a questionar se o sofrimento real também depende de ser uma experiência subjetiva mais a crença verdadeira a respeito dessa experiência.

Os psicólogos dirão que basta a sensação subjetiva de sofrimento para caracterizar sua existência real. De fato, seria impossível a um terapeuta tratar um paciente caso tivesse que conferir se as queixas do mesmo correspondem a fatos da vida real ou são derivadas de sua visão equivocada. Os psicólogos trabalham com a realidade psicológica do paciente, o que verdadeiramente importa nessa perspectiva.

Como utilizar essas reflexões na vida real? Também procuro essa resposta. Vou compartilhar uma experiência recente esperando os comentários dos leitores.

Atendi um senhor de 85 anos, trazido pela esposa e pelo filho ao meu consultório porque se encontrava distante, apático e esquecido. Conversando e instigando o paciente, finalmente ele se abriu e despejou uma grande carga de sofrimento que vinha sentindo por ter sido injustamente acusado de ter uma conduta errônea. Seu sofrimento se intensificava porque o pecado que lhe foi atribuído era grave de acordo com suas convicções religiosas. As lágrimas sentidas desciam do rosto digno daquele ancião que tinha como grande orgulho apenas o fato de ter sido sempre honesto, a despeito das dificuldades econômicas que a pobreza lhe trouxera. O sofrimento para ele era tão insuportável que afirmou preferir morrer a carregar aquela mancha em sua honra.

Aprofundando a anamnese e diante do assombro dos familiares, descobrimos que o paciente apresentava um sintoma delirante e que a tal acusação jamais havia acontecido. O curioso é que, com exceção dessa narrativa delirante, o paciente mantinha um discurso coerente em outros sentidos. Aparentemente, havia um declínio associado da memória e talvez um quadro inicial de demência.

Nesse caso, embora a experiência subjetiva do sofrimento fosse verdadeira e imensa, a crença sobre o fato gerador do sofrimento era falsa pois se tratava de um delírio.

Obviamente, demos seqüência ao tratamento visando o controle dos sintomas delirantes  e da depressão associada, enquanto investigamos uma possível demência. Mas procuramos aliviar também o sofrimento desconcertante sentido pelo paciente, independente de ter uma origem plausível ou não.

Como a experiência do sofrimento é subjetiva e não guarda uma proporcionalidade fixa com os fatores que o originam,  podemos dizer que o padecimento é uma construção da nossa própria mente e nela deve estar a chave para a resolução desse problema. Infelizmente, quando estamos submetidos a um sofrimento decorrente de uma percepção distorcida da realidade é muito difícil conseguirmos entender que nossa mente está produzindo tudo isso. Quando as pessoas se dão conta de que a dor pode até ser inevitável mas que nós decidimos o quanto sofreremos por ela, uma revolução ocorre internamente.

Talvez tudo esteja na nossa mente e ainda não tenhamos a elevação necessária para perceber isso. A vida nos apresenta situações e circunstâncias adversas, mas devemos estar atentos porque há um espaço de liberdade entre a dor dos fatos e o sofrimento que carregamos. Nesse espaço podemos trabalhar para diminuir o pesar diante da dor ou até transformar experiências desagradáveis em motivo de alegria e crescimento. Tudo é mente.

 © Roger Taussig Soares – Direitos Autorais Reservados

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