Um Gás na Memória

Vivemos na tal da sociedade da informação e ninguém tem tempo a perder. A norma é "faça sempre o melhor, no menor tempo possível". A cobrança por desempenho é generalizada e não demonstrar uma busca constante de superação nesses quesitos, ou seja, tempo e perfeição, pode significar um problema no campo profissional. Com a cultura da competição exacerbada e a filosofia do "bestismo", ensinada na escola e checada pelos pais em casa, é garantido que crescemos com o peso de sermos sempre "the best".

Como se manter nos patamares de alta performance tem também um custo alto para a saúde do corpo e da mente, seja no esporte, na vida intelectual ou na produção laboral, não é incomum que gastemos mais energia do que somos capazes de repor, seja pelo limite de absorção ou pelo tempo necessário de descanso para recompor nossas reservas. Ao fechar o balanço dos desgastes sucessivos aos quais nos submetemos, acabamos com uma conta que somos incapazes de quitar.

Especificamente na questão do desempenho intelectual e da memória, na esperança de conseguir um gás a mais, muitos apelam para os chamados "boosters" que prometem dar uma turbinada no cérebro. A cafeína é a droga mais consumida no mundo todo com esse propósito. Para acordar, melhorar a atenção ou a memória, a cafeína é utilizada em doses variadas e pode gerar situações de dependência física. O excesso de cafeína pode precipitar arritmias cardíacas e até convulsões. Nos EUA foi identificado que alguns adolescentes que abusavam dos energéticos à base de cafeína tiveram crises convulsivas. Além disso, o consumo exagerado de café pode levar às enxaquecas de final de semana que aparecem na falta da substância.

Outros energéticos naturais também são usados para melhorar a performance, incluindo o nosso brasileiríssimo guaraná, o açaí e o chá mate tostado ou chá verde. Alguns são até classificados, glamurosamente, de "brain food". No geral, todos eles têm efeitos semelhantes à cafeína, são as denominadas xantinas e agem de modo semelhante.

Nos momentos de desespero, perto de provas ou concursos importantes, há quem apele para incrementos químicos por meio de estimulantes do sistema nervoso central. Anfetaminas e seus derivados, bem como os mais recentes metilfenidato e modafinil são drogas perigosas, de prescrição exclusiva para médicos habilitados e podem causar desde arritmias graves até hemorragias cerebrais.Submeter-se ao uso desses produtos para uma finalidade que não o tratamento de doenças específicas pode levar a consequências irreversíveis e desastrosas.

É importante ter claro que quanto mais se tenta levar a performance ao máximo, mais próximos estamos do ponto de quebra, da mesma maneira que um motor de automóvel com o pé afundado no acelerador. Só que reparos no corpo nunca ficam tão bons porque não podemos trocar as peças.

O melhor é entender como funcionam os mecanismos de memória, atenção, linguagem etc para encontrar as melhores estratégias de aprendizado e de trabalho. Como exemplo, basta lembrar que a consolidação das memórias de longo prazo ocorre especialmente à noite, durante o sono REM. Ou seja, não adianta passar a noite estudando sem dormir o suficiente para gravar efetivamente o que estudou.

Outro hábito saudável é fazer pequenos intervalos regularmente durante as sessões de estudo. Temos um tempo máximo que conseguimos permanecer concentrados e atentos, 10 ou 15 minutos de descanso são capazes de refazer nossa capacidade de manter o foco e dar folego para mais tempo de leitura com boa retenção.

E quanto a ser "the best", é bom repensar o que realmente é importante. O que traz felicidade pode estar sendo desperdiçado ao nosso lado, enquanto perseguimos elefantes voadores.

 

© Roger Taussig Soares – Direitos Autorais Reservados

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