Como modificar tendências e sair de uma crise

Todos passamos períodos difíceis e muitas vezes não encontramos meios para modificar as situações em que nos envolvemos. A percepção que temos é de que as coisas existem independentemente da nossa vontade e que se tivéssemos o poder para isso, certamente já teríamos mudado. Entretanto, o que poucos percebem é que, assim como na física, nossos comportamentos seguem também uma tendência inercial de se manterem como estão a não ser que uma força estranha provoque uma mudança. Compreender e identificar a inércia no nosso comportamento pode ser um fator importante para começar a mudança. Curiosamente, as crises podem ser nossas aliadas quando sabemos utilizá-las em nosso proveito. 

É mais difícil começar um novo trabalho do que mantê-lo depois que aprendemos as rotinas. Do mesmo modo, nossos projetos de vida requerem um esforço maior no início e depois se sustentam com alguma facilidade. Já quando queremos mudar a direção das coisas, precisamos aplicar uma nova força capaz de vencer aquela inércia e assim desenhar um novo rumo. Até os relacionamentos pessoais podem cair em um estado de inércia, mesmo quando não estamos satisfeitos com a condição atual. Isso acontece porque nos sentimos impotentes diante do contexto ou apenas porque não queremos nos dar ao trabalho de mudar. Passamos então a acreditar que o que nos resta é nos conformarmos, resignando-nos ao que o destino mandou. É a inércia em nós que nos faz continuar do mesmo jeito.

Contudo, a natureza pede mudanças, pois vivemos em um mundo com forças como a gravidade que nos provocam continuamente. Podemos tolerar um certo tanto de frustração, de tristeza, de desconsolo. Mas chega um determinado momento em que as coisas se acumulam tanto que algo quebra. Aí se instala a catástrofe que deixa tudo de pernas para o ar. São as doenças que aparecem, a depressão insuportável, os rompimentos ou outras crises que destróem a ordem aparente. Essa reviravolta é a vida gritando dentro de nós por mudanças. Mesmo quando esse grito parece clamar pelo fim da própria vida, o que os impulsos querem realmente dizer é que tudo deve mudar. Ordem e caos se sucedem no pulsar da existência e nós também fazemos parte disso.

A crise já é o começo da mudança se soubermos identificá-la como sinal da nossa alma se contorcendo para renascer. A partir da catástrofe, nada mais é igual e se tem a oportunidade de gerar novas configurações e criar novos panoramas. Quando digo catástrofes, refiro-me a uma mudança de tendências que pareciam se alongar indefinidamente. Não precisa ser algo cataclísmico ou apocalíptico, apenas uma ruptura na continuidade das formas. Procurar um médico para uma consulta pode ser essa catástrofe, uma modificação de padrão que pode começar uma transformação mais profunda.

Foi o que aconteceu com uma paciente que me procurou por um quadro de depressão que ela identificara, inicialmente, como excesso de sono durante o dia. Na conversa observamos que além da sonolência, havia também tristeza, perda de ânimo, falta de energia, decréscimo da libido e pensamentos de morte. Em verdade, sua família inteira se encontrava abatida há alguns anos devido a dificuldades financeiras. Mas somente ela decidiu procurar ajuda, isso aconteceu quando que sentiu que explodiria se não fizesse algo. A depressão foi a chave que deu a partida para o movimento de reconstrução, algo que não tinha acontecido com os familiares que pareciam melhores que ela porque estavam mais "adaptados".

Essa tormenta pode parecer atribulada, mas é melhor que o marasmo conformado que nada modifica. Surge então a chance de revigorar a vida e criar algo novo. A questão é como fazê-lo. Claro que as medicações prestam auxílio inestimável, mas atuar sobre os comportamentos é fundamental.

Dizem que a soma de várias pequenas revoluções equivalem a uma grande revolução sem os estragos que essa última pode causar. Essa pode ser uma forma de alcançar a mudança desejada, quebrando um grande problema em pequenos pedacinhos que podem ser lidados com mais facilidade. A sensação de impotência diante do grande desaparece quando vemos que podemos vencê-lo um pouco a cada dia.

Devemos provocar pequenas alterações de comportamento em nós e nos outros que devem buscar 2 objetivos básicos: deixar de alimentar o contexto negativo e passar a alimentar aquilo que favorece a situação positiva que pretendemos alcançar.

Por mais que digamos o contrário, muitas das nossas atitudes alimentam a situação negativa em que nos encontramos. Essa é a tendência inercial da qual falávamos e que nem sempre percebemos. São os hábitos que adotamos inconscientemente, como a predisposição de achar que não vai dar certo ou que não existe solução. Mesmo quando temos rompantes de ânimo, eles também alimentam o estado de coisas se não sabemos empregar a força de vontade de modo consciente. Tentamos, não conseguimos e desistimos. Então confirmamos nossa teoria inicial de que seria impossível. Nossa mente é enganosa assim, desistimos antes de ter sucesso como que para confirmar que não vale a pena tentar. Lutar contra essa inércia é parar de reforçar os comportamentos que colaboram para a manutenção da tristeza.

Uma vez que identificamos os hábitos que alimentam as condições negativas, podemos evitá-los e partir para o segundo passo que é cultivar as ações que vão pavimentar o caminho que nos leve onde queremos chegar.

É o caso de se perguntar conscientemente que objetivo se quer alcançar. Em seguida, considerar quais atitudes se coadunam com aquele objetivo. A partir daí começar consciente e metodicamente a cultivar as ações que se harmonizam com nossos objetivos. Podem ser coisas pequenas, coisas que nos sintamos capazes de fazer como lançar sementes no jardim de casa. Do mesmo modo que as coisas se amarraram umas às outras e nos levaram à ruína como se todo o universo conspirasse contra nós, temos agora a oportunidade de criar as atitudes que servirão de alvancas umas às outras, todas enredadas para nos alçar a novos planos.

Evidentemente não precisamos esperar que uma catástrofe horrível ocorra para nos impulsionarmos em novas direções. A razão e o coração nos permitem agir de modo mais pró-ativo. Seguem as dicas. Procurar romper as rotinas de vez em quando ajuda a desengrenar os vícios da mente e das atitudes. Além de quebrar a rotina, é saudável suscitar em si mesmo um certo estranhamento, colocando-se um pouco afastado das situações pelo tempo suficiente para renovar os pontos de vistas.  Por fim, lembrar sempre que ordem e caos são as duas forças que movimentam o universo e se sucedem inevitavelmente, de modo que aprender com elas é estar em consonância com a Vida.

 

Dr. Roger Taussig Soares

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