Acesso privilegiado à mente

Penso, logo existo. Com essa frase Descartes conclui que a única idéia clara e distinta da qual não havia qualquer dúvida e sobre a qual poderia construir um conhecimento verdadeiro era a de que a mente existe. Sobre isso, nem mesmo um demônio maligno, nos termos do pensador francês, poderia enganá-lo pois uma vez que pensamos, existimos.

 

Na idéia do filósofo, o mundo material oferece-nos verdades sobre as quais podemos estar enganados, mas não a mente. Podemos ter a impressão de que fomos bem em uma prova, mas tiramos notas baixas. Podemos ser iludidos a ponto de nos acharmos gordos ou magros demais. Podemos ainda sonhar que estamos escrevendo um texto sobre a mente, mas na verdade estamos dormindo profundamente. Entretanto, desde que pensamos não temos como nos iludir a esse respeito. Ainda que meu pensamento seja uma imaginação, ele continua sendo real porque imaginar já é pensar.

René Descartes desenvolveu a teoria dualista de que o mundo material é essencialmente diferente do mundo mental. São duas substâncias distintas: a res extensa e a res cogitans. As coisas materiais têm dimensões como altura, profundidade; podem ser medidas, pesadas e contadas, bem como existem no tempo. Espaço e tempo são as dimensões da matéria. Já o mundo do pensamento não possui tais dimensões e seus fenômenos não se localizam em um lugar do espaço como uma cadeira em uma sala. Quando fazemos um cálculo mental, por exemplo, não podemos precisar em que local da mente isso ocorre. Do mesmo modo, podemos lembrar agora do gosto dos almoços feitos décadas atrás por nossa avó sem estarmos constrangidos pelo tempo.

Sem entrar em discussões acerca da realidade ou não da separação entre a mente e o corpo, podemos reconhecer que do pensamento cartesiano derivou a idéia de que a mente é uma instância privativa da pessoa e que temos um acesso privilegiado à nossa própria mente. Utilizando um exemplo do professor Patrick Grim, imaginemos que estamos com João e Maria e perguntamos a João se ele está com dor de dente. Ele nos responde que não. Então perguntamos a Maria se João está com dor de dente e ela diz que sim. Em quem acreditamos? Obviamente em João, pois só ele sabe dizer com certeza o que está se passando no seu mundo mental e a sensação de dor é privativa por estar na mente de quem a experimenta. Podemos até contar para alguém sobre a dor que sentimos, mas não existe uma maneira de o outro sentir a nossa dor.

As coisas que acontecem na nossa mente são privativas da nossa pessoa e, a não ser que comuniquemos a alguém o que ocorre no nosso mundo mental, elas continuam a existir somente para nós. É por esse motivo que podemos mentir, ou seja, somos capazes de dizer que pensamos ou sentimos algo diferente do que realmente acontece em nós. Talvez daí advenha o ditado “segredo de duas pessoas não é segredo”. Enquanto mantemos nossos segredos somente para nós mesmos, eles permanecem inacessíveis aos outros.

Essa idéia de que a mente é única, fechada em si mesma e separada do resto de acordo com nossa vontade, parece gerar sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo em que ficamos aliviados pelo fato de sabermos que nossos pensamentos mais esdrúxulos e censuráveis estão a salvo em nossa consciência se mantivermos a boca fechada, temos também o desejo secreto de nos vermos revelados ao outro e menos solitários em nosso mundo interno.

Para os crentes em Deus, Ele tem acesso completo a todas as mentes e conhece tudo de nós. Daí pode se produzir um certo conforto no sentido de que d’Ele não precisamos nos esconder porque não temos como fazê-lo. Por outro lado, quedamos com o fantasma de que todas as nossas ações estão sendo vigiadas, mesmo as mentais. O conceito de livre arbítrio pode até se abalar um pouco se pensarmos que por sermos vigiados, acabamos nos censurarando em nossa liberdade de ser para nos adequarmos ao que consideramos uma conduta digna.

Mas Deus é um ser metafísico. Ora imanente, ora transcendente, está em tudo e em todos. Se conhece nossas falhas, sabe também perdoá-las e utilizá-las em proveito do nosso próprio crescimento. Assim pensam os que acreditam no Ser onipotente, onipresente e onisciente.

Interessante também são as crenças espirituais que admitem que uma outra mente como a nossa própria, encarnada ou desencarnada, seja capaz de ultrapassar a barreira da privacidade dos nossos pensamentos e nos dar conselhos sem que precisemos comunicar nossos sentimentos. Assim funcionam os oráculos, as práticas mediúnicas e os poderes paranormais dos yoguins nas religiões mais antigas e também nas mais recentes. O conceito básico é o de que a nossa mente pode ser acessada por uma outra, derrubando a idéia da instância privativa do ser. Até hoje a ciência não conseguiu demonstrar que isso seja realmente possível, então permanece uma questão de fé.

Esse modelo divinatório de devassar a mente alheia não é exclusivo das crenças religiosas. Existem situações não religiosas que partem da premissa de que a mente não é inexpugnável. A psicanálise se constitui sobre o pressuposto de que temos uma mente, que não a conhecemos por completo e que a parte inconsciente da nossa mente se manifesta à nossa revelia e pode ser percebida ou flagrada pela mente de um especialista. Assim, no divã do analista, confiamos a outra pessoa a tarefa de invadir nossa intimidade e nos revelar aquilo que nem nós mesmos sabemos sobre nossa pessoa. Não há dúvida que uma certa dose de fé é necessária para se engajar num tal processo.

Não pretendemos oferecer soluções para esse dilema. Apenas apontá-lo e explorá-lo. A mente é, teoricamente, uma instância privativa do ser da qual somente o próprio self tem acesso unicamente privilegiado. Esse é considerado um fato filosófico admitido e utilizado no senso comum. Porém, muitas pessoas compartilham também crenças de que esse princípio pode ser subvertido em situações especiais como as relatadas. Deus, uma entidade espiritual e os psicanalistas podem ter acesso à consciência dos outros nesse sentido. O que não quer dizer que os três sejam iguais. Ou diferentes.

 

Roger Taussig Soares
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