Entre a mente e o corpo: nem tanto ao céu, nem tanto à terra

Mente sã em corpo são, desde os tempos romanos se ensina que essa é a combinação mais desejável na vida humana. Na prática, é difícil determinar no contexto de uma doença o que advém de uma causa mental e o que é apenas uma manifestação da biologia corporal. Ao que tudo indica, evitar os excessos para um lado e para o outro é o melhor que se pode fazer em benefício do paciente.

 

Qualquer afirmação extremada que façamos parte necessariamente de uma perspectiva filosófica não comprovável. Exemplifiquemos. Há quem diga que as doenças físicas são provenientes da mente doentia e que tudo se consubstancia a partir da mente. Essa é uma visão carregada de valores como os encontrados em diversas crenças espirituais ou, alternativamente, nas forma de mentalismo à moda do racionalismo cartesiano ou do idealismo platônico. Por outro lado, considerar que uma doença seja puramente uma manifestação de um desarranjo orgânico é basear-se em outra pressuposição, a saber, a do monismo reducionista de ordem material que elimina qualquer forma de transcendência. Significa também, em certa medida, negar a participação dos fatores emocionais e psicológicos no adoecimento. O fato é que, de um extremo ao outro, não se responde satisfatoriamente ao sofrimento da pessoa doente encarnada com uma visão unilateral, já que ela mesma é um exemplo vivo da interação indissociável de mente e corpo.

Chamemos a atenção especialmente para o preconceito embutido no rótulo de "isso é psicológico" imposto sobre muitas pessoas. Acontece quando vão aos médicos que, por não terem às vezes a competência para distinguir a patologia em questão, resumem o quadro com a estampa de "problema psicológico", encobrindo sua ignorância e acrescentando mais um transtorno para quem já o tem de sobra. Doenças como porfiria aguda intermitente, encefalites autoimunes, distúrbios do ciclo da uréia, desequilíbrios hormonais etc podem se manifestar com sintomas de curso flutuante, em crises estranhas, que podem facilmente sugerir um comprometimento psiquiátrico e serem mal diagnosticados. O pior caso de que tive notícia foi o de uma adolescente levada pela mãe a um pronto atendimento com agitação psicomotora aguda. O médico acreditou que estivesse diante de uma usuária de drogas e mandou ela e a mãe para casa. Felizmente, outro colega foi visto a tempo para detectar um aneurisma cerebral que havia se rompido.

Outro efeito colateral grave da conduta de atribuir os sintomas físicos a esferas psicológicas é a criação de uma expectativa injusta sobre o doente. Já que o problema é psicológico, basta o paciente querer e ficará bom. Se não fica bom é porque não se empenhou o suficiente. No entanto, doenças como déficit de atenção e hiperatividade se desenvolvem a despeito da vontade do indivíduo e podem consumir sua autoestima pela sensação de não conseguir fazer o que dependeria exclusivamente dele. Frequentemente nos deparamos com a possibilidade de tratar essas doenças ditas mentais com remédios materiais e, sem surpresa, observamos a mudança do paciente e até do seu contexto familiar para melhor. Comprova-se que se o mental pode afetar o corpóreo, o caminho inverso também é possível.

Mas nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Inegavelmente os processos mentais interferem no equilíbrio orgânico. Uma sutil integração psico-neuro-imuno-endocrinológica permite a comunicação entre orgãos e adaptações do corpo diante de estados mentais específicos. O estresse pode piorar doenças autoimunes, a depressão pode comprometer a resistência e favorecer as infecções, os estados emocionais podem precipitar crises de enxaqueca e até convulsões em pessoas suscetíveis. Além de causar doenças, a mente também causa saúde. Práticas como a yoga podem aumentar a qualidade de vida geral e diminuir vários problemas psiquiátricos. As técnicas de meditação melhoram o funcionamento do cérebro de pessoas com TDAH, transtorno de ansiedade e até curam gastrites. Uma boa psicoterapia pode facilitar o controle de pressão alta ou diabetes.

Se a questão filosófica é a defesa entre um extremo ou outro, numa forma de solipsismo que dita de um lado que tudo é mente ou, de outro, que tudo é corpo, não seria cabível também perguntar como alternativa aos radicais se algum deles existe separadamente do outro? Existe mente sem corpo? Ainda seria mente ou seria alma, espírito ou alguma outra entidade? Existe corpo sem mente? Sem a possibilidade de autoconsciência e percepção da própria imagem corporal, poderíamos dizer que somos um corpo ou seríamos uma massa amorfa sem noção dos próprios limites? Um corpo inerte já não se reconhece como ser ou não-ser, simplesmente não tem essa opção. Talvez a solução do dilema seja que corpo e mente, entendidos como dualidade de opostos no estilo Yin-Yang , se constituem reciprocamente e dependem um do outro para serem o que são.

Podemos(talvez devamos) buscar a amplificação da compreensão de nós mesmos. É lícito e elevado tentar realizar a superação da condição humana em alguma forma de transcendência. No processo de expansão ganhamos em capacidades metacognitivas e criamos talvez uma metaconsciência que nos permite apreciar melhor a própria existência. Mas enquanto não somos o super-homem, estamos numa corda sobre um abismo entre a condição puramente animal que deixamos para trás e aquela que perseguimos adiante, em direção à qual nos aventuramos como malabaristas. Ainda que essa jornada seja o próposito último que dá significado à nossa existência, devemos reconhecer que vida transcorre sempre no binômio mente-corpo e para os que desejam ou precisam cuidar de alguém é preciso ser capaz de enxergar, antes de tudo, a unidade.

 

 

Dr. Roger Taussig Soares

crm 69239 SP

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